19 agosto 2017

Zwingli, Sola Scriptura contra os Anabatistas em 1523–24

by R. Scott Clark

Em sua segunda disputa com Balthasar Hubmair, em 1523, Huldrych Zwingli articulou bem o princípio formal da Reforma: “Pois, em todas as controvérsias relativas à fé e à religião, somente a Escritura divina deve ser a nossa medida e a nossa regra antes que a tradição oral”. Zwingli articulou este princípio no contexto de um debate com um dos principais anabatistas de primeira geração. Hubmair sugeriu que quem argumenta que Zwingli não se tornou um anabaptista (e que ele até se esforçou para ser) porque o reformador suíço realmente não acreditava no princípio da Sola Scriptura (ou porque ele temia as autoridades civis) mal interpretaram Zwingli. Foi por sua leitura das Escrituras que Zwingli rejeitou a escatologia anabatista e sua compreensão da história da redenção. Assim como Barnabé, Ireneu e Justino Mártir rejeitaram a dicotomia gnóstica e marcioníca entre Moisés e Cristo em favor de uma aliança unificada de salvação, a qual o Reformado mais tarde chamaria de aliança da graça, assim também Zwingli, Oecolampadius e Bullinger argumentariam que o Antigo e o Novo Testamento são fundamentalmente unificados por uma única aliança de graça. Eles reconheceram a diversidade na administração da aliança da graça sob Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi e os Profetas. Zwingli e outros dos primeiros teólogos Reformados reconheceram que havia uma qualidade temporária para a administração mosaica da aliança da graça que a distinguia das outras administrações. Eles reconheceram uma forte continuidade entre a administração abraâmica da aliança da graça e a nova aliança.

Em sua Exposição dos Artigos, escrito em 1524, ele explicou a relação entre a aliança e o batismo nesses pontos:

1. O batismo foi inscrito como um "juramento de fidelidade" (sacramentum) na igreja visível, uma iniciação de entrada ao povo de Deus.
2. Se existe um só povo de Deus, com uma só fé, num único Salvador, segue-se que os sinais e selos dessa salvação, Salvador e fé, não mudaram radicalmente.
3. Assim, ele apelou para Cl 2: 11-12, onde Paulo ligou a circuncisão e o batismo, como prova de que os pais cristãos também devem administrar o sinal da aliança aos seus filhos.
4. Ele concordou com Lutero que os Sacramentos fortalecem a fé, mas ele esclareceu para dizer que eles não a produzem. Esta é a obra do Espírito através da Palavra.
5. Contra os anabatistas (ou seja, Schwenkfelders), ele argumentou que eles adicionaram as Escrituras negando o paedobaptismo. O NT se silencia, portanto, a ordem de administrar o sinal da aliança continua a sua aplicação hoje.
6. Ao proibi-lo, eles estavam adicionando as Escrituras e fazendo exatamente o que Jesus disse para não fazer: proibir as crianças de se achegarem a ele!
7. Se negarmos que as crianças sejam batizadas, devemos negar que as mulheres venham à mesa da comunhão, porque não há evidências positivas de que no NT houve tal permissão.
8. Se o batismo de João é substancialmente o mesmo que o de Cristo, então não há necessidade categórica de ser discipulado antes do batismo, já que os discípulos de João nem ouviram falar de Cristo antes de serem batizados. O batismo de João era prospectivo e a retrospectiva de Cristo.
9. Certamente as crianças foram batizadas no AT. Todos os israelitas, crianças e adultos, foram batizados com Moisés no Mar Vermelho (1 Co 10).
10. Os filhos dos crentes nascem com o pecado original, mas não a culpa original e, portanto, são elegíveis para o batismo.
11. Como os filhos dos crentes do NT podem ser piores do que os filhos dos judeus que receberam o sinal da aliança, se esta é uma aliança melhor?
12. O sinal de iniciação, em ambas as alianças, sempre implicou numa promessa de renová-lo com os filhos, por isso ele é o sinal.

O Reformado não continuou, necessariamente, todas as linhas de argumentos que fez em 1524 (por exemplo, a sua distinção entre o pecado original e a culpa original), mas a continuidade entre a primeira compreensão reformada da aliança da graça (e do batismo infantil) e mais tarde, em expressões mais maduras (por exemplo, o tratado de Bullinger sobre a aliança da graça), são as mesmas de Calvino, em 1540-60, e dos teólogos de Heidelberg nas décadas de 1560 a 70) são inconfundíveis.

Na mente de Zwingli e na compreensão dos escritores reformados posteriores, a unidade fundamental da aliança da graça entre Abraão e a nova aliança não era uma mera convenção, isto é, não era arbitrária. Viram-na no texto da Escritura. Eles foram conduzidos a ela pela própria Escritura. A teologia da aliança era um relato da Escritura. Foi uma tentativa de explicar pontos decisivos na história da redenção, onde a aliança desempenha um papel fundamental, seja no capítulo 6 de Gênesis ou nos capítulos 12, 15 e 17 e Jeremias 33 ou na instituição da Ceia do Senhor (por exemplo, Lucas 22) ou no relato de Paulo sobre a história da redenção em 2 Coríntios 3, Gl 3-4, ou nos capítulos 7-10 de Hebreus. Os primeiros reformados não eram como às vezes se alega, que apenas procuravam uma justificativa ex post facto da prática medieval, pelo contrário, buscavam o relato na própria Escritura. Na mente de Zwingli o batismo infantil era o produto da Sola Scriptura.

Extraído de heidelblog.net acessado em 19/08/2017, às 18h13.
Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

23 abril 2017

A ideia de liberdade em Agostinho [uma breve nota]

Agostinho ensinava os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], Richard A. Muller explica que “a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular”. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: “antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar”. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: “uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar”. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: “a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem”. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: “uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado”.

Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse).

Veja Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms (Baker Book), p. 176.

10 janeiro 2017

Honestidade confessional e denominacional - William G.T. Shedd

Honestidade é de suma importância tanto em teologia quanto em transações comerciais, tanto em uma denominação religiosa quanto num partido político. Honestidade denominacional consiste, em primeiro lugar, de uma clara declaração pela Igreja de suas crenças doutrinárias; e , em segundo lugar, de uma inequívoca e sincera adoção pelos seus membros. Ambos são requisitos.

Se uma denominação em particular faz declarações soltas de suas crenças que são passíveis de mais de um sentido, o credo é bem desonesto. Se o credo de uma denominação é bem elaborado e claro, mas a membresia subscreve a ele com reservas mentais e insinceridade, a denominação é desonesta. Honestidade e sinceridade são encontradas na convicção clara, e convicção clara é encontrada no conhecimento e reconhecimento da verdade. Heresia é um pecado, e é classificado por Paulo entre 'as obras da carne', junto com 'adultério, idolatria, assassinato, inveja e ódio' que excluem do reino de Deus(Gal. 5.19-21). Mas a heresia não é tão grande pecado quanto a desonestidade.

Um herege que se reconhece como tal é um homem melhor do que aquele que pretende ser ortodoxo ao subscrever a um credo que antipatiza, o qual enfraquece no pretexto de adaptá-lo aos novos tempos. O herege honesto deixa a Igreja com a qual não mais concorda; mas o subscritor permanece dentro dela de modo a seguir adiante o seu plano de desmoralização.

William G.T. Shedd, Calvinism: Pure & Mixed (Edinburgh, The Banner of Truth, 2000), p. 152.
Tradução de Emerson Costa