24 novembro 2017

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 2

Neste capítulo trataremos de duas formas como Satanás procura desviar o crente para o pecado. Uma maneira é tornando-o muito atraente e outra é persuadindo aos crentes de que os seus pecados são pequenos e sem importância.
Primeiro, o diabo engana aos crentes fazendo do pecado algo atrativo, natural e de aparência normal e aceitável. O pecado quase sempre se disfarça com esta aparência. Talvez muitos crentes se apeguem demasiadamente em sua própria aparência, ruas roupas, seus pertences, em sua reputação. O diabo lhes diz que isto não é orgulho, que é algo normal, que todos fazem isto. Talvez alguns crentes são cobiçosos e Satanás lhes sussurrará que isto é justo, que é normal, que consigam e atesourem tudo o que puderem, afinal, todo mundo o faz. Talvez uma pessoa tenha a tentação de beber. Então o diabo lhe dirá que não é pecado embriagar-se. Simplesmente lhes dirá que é uma diversão saudável, uma forma de convivência e de ser amistoso com os demais. Depois lhes dirá que merecem e fará com que o vício lhe pareça muito atrativo, acrescentando-lhes uma posição social, um prestígio, lindas mulheres, prosperidade, simpatia, etc.

Quando Satanás se dedica a seduzir-nos desta forma, então temos que recordar de quatro fatos importantes:

Primeiro, o pecado não é menos vil e abominável quando é apresentado numa forma mais atraente. O diabo gosta de esconder a verdade acerca do pecado. O Novo Testamento diz que o diabo pode transfigurar-se num anjo de luz (2 Co 11.14) que o lobo pode se disfarçar com pele de ovelha. Mas Satanás e o pecado continuarão sendo “Satanás e o pecado”; não importa como se disfarcem.

Segundo, quanto mais atrativo se apresenta o pecado, resulta em maior perigo. O veneno mais perigoso se encontra, frequentemente, nas flores mais bonitas. A roupa mais cara, em geral, é usada para cobrir os corpos mais indignos e o corpo mais perfeito cobre a alma mais vil. Do mesmo modo, os nomes mais sofisticados e os títulos mais elevados são usados para falar dos vícios mais horríveis e dos pecados mais abomináveis.

Terceiro, é necessário que vejamos o pecado tal como o veremos no dia do juízo. Nesse dia todos verão a verdadeira face do pecado. Quando todos os povos estiverem reunidos diante do Grande Juiz do universo, então apreciarão a pecaminosidade do pecado. Nesse momento o pecado será desmascarado e será despojado de sua atrativa vestimenta; aparecerá mais sujo e mais desprezível que o próprio inferno. O que antes parecia formoso e atraente, se manifestará feio e repugnante. A Bíblia descreve o pecado comparando-o com várias coisas: o vômito de um cão, uma ferida apodrecida, a lepra, o esterco, a espuma do mar, etc. Também compara os pecadores com os porcos que se revolvem no lodo, bestas embrutecidas, animais irracionais (cabras, cães, bois), agitadas ondas do mar, estrelas errantes, árvores desarraigadas, etc. É necessário ver o pecado tal como o veremos no dia da morte. A consciência pode estar adormecida por um longo tempo, mas no dia da morte e do juízo se despertará e nos mostrará o dano e amargura do pecado. Então devemos aprender a ver o pecado não como é apresentado pelo diabo, senão como o veremos na eternidade.

Quarto, os pecados que parecem mais atrativos provocaram a morte de nosso Senhor Jesus Cristo. Somente podemos avaliar o pecado à luz da crucificação de Cristo. Devemos ver a Cristo em sua paixão e sofrimento pelo pecado: afligido, chicoteado, ferido, humilhado, angustiado, suando grandes gotas de sangue, seu corpo desfigurado, seu sangue derramado, o Juiz do universo condenado, o Senhor de vida morto, sua cabeça que levava a coroa de glória, coroada de espinhos. Seus ouvidos que recebiam o louvor celestial, agora recebem o desprezo e as blasfêmias da multidão. O rosto mais formoso dos filhos dos homens é cuspido e desfigurado. As mãos que sustentavam o cetro agora são cravadas numa cruz. Tudo isso foi originado pelos pecados que o diabo procura apresentar de modo tão atrativo. Quando os crentes veem a Cristo sofrendo e morrendo pelo pecado, percebem o quão mau ele é, e eles lhe viram as costas e lutam contra ele. Outra maneira como Satanás seduz os crentes ao pecado é dizer-lhes que os seus pecados são “pecadinhos”, ou seja, que seus pecados são pequenos e sem importância. Quando Satanás age assim, quer que os crentes passem desapercebidos de certos pecados e que se acostumem com eles. Ele intenciona que classifiquem os seus próprios pecados como ínfimos em comparação com os pecados dos demais. Deseja que os crentes pensem do pecado como se houvessem apenas pecados grandes e escandalosos, para que evitem apenas estes últimos.

O primeiro remédio contra essa tática é percebermos que os pecados que parecem pequenos atraem a ira de Deus. Mesmo o menor pecado é uma transgressão contra a santa lei de Deus. Os pecados que parecem “pequenos” são ofensas contra a glória e a bondade de Deus. Um único pecado arruinou toda a raça humana. Por pecados que aos homens parecem pequenos, Deus derramou o inferno sobre Sodoma e Gomorra.

Segundo, os pecados pequenos inevitavelmente conduzem a pecados maiores. O pecado se contamina a vida pouco a pouco. Os que continuam vivendo em pecados pequenos, terminarão vivendo completamente em pecado. Quando cometemos um único pecado, nunca saberemos até que ponto nos levará. O rei David começou desejando a Bate-Seba e terminou adulterando e assassinando a Urias, o heteu, seu marido. Os que começam com pequenos pecados não podem deter-se, e normalmente terminam em grandes pecados.

Terceiro, é algo triste afastar-se de Deus devido a um pecado pequeno. Podemos dizer que por menor força seja a tentação, maior é o pecado; os pecados menores deveriam ser os mais fáceis de se evitar. Quando alguém é tentado numa coisa pequena e cede, demonstra o quão mau é. Indica que prefere gozar um poco do pecado, do que se satisfazer em Deus. Quando nos desgostamos com um amigo acerca de uma coisa pequena, isto demonstra nossa necessidade e nossa falta de humildade. Do mesmo modo é tolice e perversidade pecar contra Deus e afastar-nos dele por causa de um pecado pequeno.

Quarto, frequentemente há um perigo enorme no pecado menor. Os pecados pequenos podem influenciar-nos por longos períodos de tempo até que nos causem muitos danos. Um pequeno furo num barco permite a passagem da água até que finalmente o afunde. Assim, um pequeno pecado pode afetar-nos paulatinamente até arruinar a nossa vida.

Quinto, ao longo da história sabemos que os crentes escolheram sofrer os piores tormentos do que participar dos pecados pequenos. Daniel e seus amigos puderam pecar facilmente, mas estavam dispostos a sofrer. De igual forma muitos crentes sofrem por se negarem a participar da idolatria, do mundanismo, dos erros doutrinários, etc.

Finalmente, quando Deus mostra aos homens quão poderoso é o pequeno pecado, não poderão manter-se de pé diante da culpa do menor deles. Os egípcios consideravam a praga das moscas como o “dedo de Deus”. E mesmo sendo criaturas pequenas se tornaram poderosas quando foram usadas por Deus para juízo. Então, quando Deus mostra aos crentes o mal e o grande poder dos pecados pequenos, não poderão pensar superficialmente neles.

23 novembro 2017

5 teólogos batistas que todo pastor deveria ler

por Jeff Robinson

Irmão pastor, se você não leu profunda e amplamente no registro da história do batista, coloque esses gigantes em sua lista de leitura.
Alguns anos atrás, eu tinha um amigo que partia do convívio batista para se juntar a Presbyterian Church in America. Quando discutimos seu raciocínio para a mudança, ficou claro que tinha menos a ver com o batismo do que a herança teológica. Em sua opinião, a ascendência confessional e teológica dos batistas não era bem igual à dos presbiterianos.
Não há dúvida, nossos amigos presbiterianos - dos quais eu tenho muitos - possuem uma forte herança confessional com uma lista conhecida de nomes que vão de Calvino e Knox a Hodge, Warfield e Machen. Mas os batistas têm uma linhagem teológica robusta também. Como pastores, devemos estar lendo e envolvendo figuras notáveis do nosso passado e, como surge a oportunidade, devemos conscientizar nossas congregações de nosso rico legado confessional, teológico e de púlpito.

Para esse fim, aqui estão cinco teólogos batistas do passado, eu recomendo como uma leitura necessária para cada pastor batista.

1. BENJAMIN KEACH (1640-1704)
Keach serviu como pastor da igreja Horse-lie-down em Southwark, na Inglaterra. Ele adotou a soteriologia reformada depois de inicialmente subscrever o Arminianismo. Keach estava entre os signatários da Segunda Confissão de Londres de 1689, escreveu talvez o catecismo batista mais amplamente utilizado, e argumentou com sucesso em favor do cântico de hinos no culto congregacional.
As principais áreas de contribuição de Keach incluem a teologia da aliança em sua expressão batista e justificação pela fé. Ele escreveu 43 obras, várias das quais permanecem impressas. Leitura recomendada de Keach: o Catecismo de Keach, A Pregação dos Tipos e Metáforas da Bíblia, As Viagens da Verdadeira Divindade, A Essência da Verdadeira Justificação e Exposição das Parábolas.

2. JOHN GILL (1697-1771)
Muitas vezes, John Gill é acusado de hipercalvinista. Enquanto esse ponto é discutível (Tom Nettles lida com isso neste livro clássico), durante muitos anos ele pastoreou a igreja Horsleydown, a congregação que foi pastoreada por Keach e mais tarde Charles Spurgeon (que eventualmente se tornaria Tabernáculo Metropolitano). Ele debateu com o famoso fundador do Metodismo, John Wesley, sobre a predestinação e resistiu acusações de que sua teologia da soberania de Deus equivalia ao Antinomianismo.
As principais áreas de contribuição de Gill incluem uma defesa das doutrinas da Graça, da Lei e do Evangelho, teologia sistemática e da exposição das Escrituras. Leitura recomendada de Gill: Compêndio Completo de Teologia Prática, Uma Exposição do Antigo e do Novo Testamento, A Causa de Deus e a Verdade, A Aliança Eterna.

3. ANDREW FULLER (1754-1815)
Fuller poderia ser considerado o pai do movimento das missões modernas junto com seu colega mais famoso, William Carey. Convertido sob a pregação de um pastor hipercalvinista chamado "Sr. Eve", Fuller foi convertido e batizado em 1770 em Soham, Inglaterra, onde mais tarde serviu como pastor de 1775 a 1782. Mudou-se para Kettering em 1782, onde permaneceu como pastor até a sua morte em 1815. Fuller forneceu o fundamento teológico para missões globais com seu livro Evangelho Digno de Inteira Aceitação, em que ele respondeu - em resposta às críticas do hipercalvinismo - o que era então conhecido como "A Questão Moderna:" Cada pessoa tem o dever de se arrepender dos pecados e acreditar em Cristo? Fuller respondeu afirmativamente e enviou Carey para a Índia.
Fuller foi um firme defensor do calvinismo experiencial e evangélico e participou de várias controvérsias teológicas importantes, incluindo debates com Robert Sandeman sobre uma forma de crença fácil. Ele debateu com o batista geral Dan Taylor sobre a extensão da expiação. Fuller foi o pai fundador da Baptist Missionary Society e serviu como seu secretário por 23 anos, até o fim de sua vida. Ele produziu muitas obras e é uma leitura extremamente frutífera. De muitas maneiras, Fuller e Spurgeon brilham como exemplos bíblicos preeminentes do pastor-teólogo. Os trabalhos de Andrew Fuller permanecem disponíveis hoje em três volumes.

4. JOHN LEADLEY DAGG (1794-1884)
Dagg foi o primeiro teólogo escritor entre os batistas do sul. Nascido em Loudon County, Virgínia, Dagg foi pastoreado na Filadélfia e, posteriormente, mudou-se para a Geórgia, onde atuou como presidente da Mercer University. Os seus escritos exalam como o doce aroma de Cristo ao articular um robusto calvinismo evangélico.
A sua magnum opus foi o Manual de Teologia, publicado em 1857, a primeira teologia sistemática abrangente escrita por um Batista na América. A Nova Enciclopédia da Geórgia escreve brilhantemente acerca do maior teólogo do Estado de Peach: Dagg é talvez a figura teológica mais representativa entre os batistas antebellum nos Estados Unidos.
Para os seus contemporâneos, ele era “o venerável Dr. Dagg”, um homem de intelecto e piedade, de honestidade e integridade, de clareza em pensamento e discurso. A sua gentileza e cortesia foram frequentemente observadas. Uma pessoa escreveu: “Se alguma vez houve um grande homem que não conhecia, ou conhecendo, não se importava com isso, esse homem é o Dr. Dagg”.
Juntamente com o seu Manual de Teologia, em 1858, ele escreveu um tratado sobre a ordem da igreja, um volume complementar do Manual sobre eclesiologia batista. Ambos permanecem impressos e são necessárias leituras para pastores batistas.

5. JAMES P. BOYCE (1827-1888)
Como presidente fundador do Southern Seminary, Boyce estabeleceu uma visão confessional para a educação do seminário com suas "Três Mudanças nas Instituições Teológicas" que permanecem firmes até hoje. Boyce, um nativo da Carolina do Sul, foi pioneiro na educação teológica batista do sul. Ele serviu como pastor da Primeira Igreja Batista de Columbia, S.C., e também passou um breve período como editor do jornal denominacional na Carolina do Sul. Ele era filho de um comerciante influente, e foi educado na Brown University e na Princeton University, onde foi influenciado pelos famosos teólogos de Princeton. Boyce escreveu um catecismo, mas a sua maior contribuição escrita foi o seu Resumo de Teologia Sistemática, que permanece impresso. Como os dois volumes de Dagg, a teologia de Boyce é uma leitura prazerosa do caloroso e experiencial Calvinismo.

Obviamente, isso deixa no banco dois gigantes que se destacam na paisagem batista, John Bunyan e C. H. Spurgeon. Não há dúvida de que ambos se classificariam no topo de qualquer lista de famosos batistas (se você concebe que Bunyan era um batista, e eu estou disposto a aceitá-lo) pastores-teólogos. Eu os omiti da minha lista dos cinco melhores, simplesmente, porque queria incluir homens que talvez fossem menos conhecidos de alguns. Vou assumir que a maioria dos leitores conhecem a posição de importância de Bunyan e Spurgeon na leitura essencial para todos os pastores - quer sejam batistas ou, de outros grupos. A maioria dos livros de Spurgeon permanecem impressos, assim como a maioria dos seus sermões, e as obras de Bunyan estão disponíveis em três volumes, bem como em edições críticas individuais.

Irmão pastor, se você não leu profunda e amplamente o registro da história batista, coloque esses gigantes em cima de sua lista de leitura.

Extraído de http://equip.sbts.edu/article/5-baptist-theologians-every-pastor-read/
Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

22 novembro 2017

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 1

Neste capítulo trataremos com uma das maneiras que Satanás procura conduzir aos crentes ao pecado. Este método consiste em mostrar-lhes que há prazer em pecar, ocultando-lhes a tristeza e as consequências que o pecado lhes trará. O pecado pode parecer muito prazeroso e Satanás quer que os crentes pensem acerca dele desta maneira. O diabo sabe que se cairmos no erro de pensar assim, o pecado nos parecerá muito atrativo e nos esqueceremos da verdade que o pecado é cruel e danoso. Deus disse a Adão e Eva que não comessem do fruto da árvore ou morreriam, além disso Satanás falou à mulher que comendo do fruto seriam como deuses. Satanás fez que a desobediência parecesse atrativa e prazerosa. Satanás continua fazendo o mesmo até hoje. Por exemplo, no deserto tentou a Jesus da mesma forma. Ele apresentou a Jesus todos os reinos e sua glória, oferecendo-lhes sob a condição de que Jesus lhe adorasse. Quão formoso e sedutor apresentou o pecado. Todavia, Jesus não foi seduzido pela astúcia do diabo.

Como os crentes conseguirão resistir a Satanás, quando faz com que o pecado seja tão atrativo? Há quatro remédios que podem nos ajudar para não sermos atraídos pelo pecado desta maneira. Primeiro, os crentes devem manter-se afastados do pecado tanto quanto consigam (1 Ts 5.22, Pv 5.8). Uma pessoa que caminha à beira do precipício, pode cair a qualquer momento. Se o crente caminha próximo do que é pecaminoso, não deve surpreender-se se é preso pelo pecado. Paulo disse aos cristãos que odiassem a maldade e que a odiassem intensamente (Rm 12.9).

Segundo os crentes devem recordar que o prazer do pecado prontamente se converterá em amargura (Jó 20.12-14). O pecado pode celebrar o prazer por um instante e parecer-nos fácil no início (Hb 11.25); mas ao fim, a dor produzida é maior que o prazer que se recebe. É como a comida com veneno, tem bom sabor, mas se não é descartada é mortal. O pecado que se come na terra, terá que se digerir no inferno.

Terceiro, os crentes devem recordar que o pecado lhes fará perder aquilo que é realmente bom. Os que cedem ao pecado perdem o favor de Deus. O seu gozo espiritual se desvanece e perdem a paz em seu coração. O Espírito Santo é entristecido e sua influência vivificadora diminuí. O pecado lhes faz perder estas boas coisas. Então, o diabo lhes está enganando porque o pecado não é realmente prazeroso (o seu conforto sempre é temporal).

Quarto, os crentes devem fixar-se bem na forma como o pecado engana. O pecado é o maior enganador e é a causa de todo o engano que há no mundo. Em si mesmo, o pecado é sobremaneira pecaminoso. (Hb 3.13) Quando o pecado os engana, os crentes frequentemente se negam a admiti-lo e, pelo contrário, pensam que estão bem. O pecado lhes faz crer que o mal é bom. Basta pensar no que aconteceu com Faraó, Balaão e Judas, para percebermos que uma pessoa pode conduzir-se pecaminosamente pensando que está agindo bem. Em tais exemplos podemos observar como é que uma pessoa pode estar disposta a perder a Deus, o céu, Cristo e ainda a sua própria alma porque não quer deixar os seus pecados. Não há nada tão enganoso como o pecado.

Recorde-se de que o pecado não é prazeroso, pelo contrário, ele é amargo, e não importa que tão agradável lhe pareça. Não deixe que Satanás lhe afaste de Deus com um engano como este.

21 novembro 2017

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Prefácio

Escrito por Thomas Brooks

Originalmente publicado em 1652 na Inglaterra

Introdução

Este livro trata com as estratégias usadas por Satanás para induzir aos crentes a pecar. Satanás é o inimigo de Cristo e de todos os seus discípulos. Satanás quer desviá-los da vontade de Deus e que se afastem dele. Satanás é muito sútil em seu propósito. Deseja que os crentes sejam seduzidos sem que eles percebam. Quer que pequem, mas não quer que creiam, ou percebam que estão pecando.

Há quatro assuntos acerca dos quais os crentes devem aprender. Devem aprender de nosso Senhor Jesus Cristo, acerca da Bíblia, a respeito de si mesmos e acerca da astúcia de Satanás em seus intentos de afastá-los de Deus.

Satanás é um inimigo cruel. Ele demonstra o seu desprezo contra Deus e o seu povo em todas as formas que lhe seja possível. Satanás quer que o povo de Deus seja miserável e cheio de amargura. Sabe que não há nada que lhes faça mais miseráveis do que fazer-lhes cair em pecado. Satanás utiliza muitas maneiras enganosas para conseguir que os crentes pequem. Satanás é um inimigo forte, mais forte do que a nossa capacidade. Satanás pode ferir e causar muitos danos aos crentes. Em sua astúcia não quer que os crentes não se informem de quão forte ele é, e, portanto, é necessário advertir a cada crente: Satanás é um inimigo forte e cruel. Desejo adverti-los de que maneiras Satanás procurará daná-los. Desejamos que todos os que lerem este livro sejam fortalecidos a fim de que possam resistir a Satanás em todas as suas conspirações.

Por isso não é suficiente apenas ler este livro, há que aprender e praticá-lo. Todo ensino cristão não é simplesmente para ajudar aos crentes que aprendam a verdade. Os crentes devem não somente entender a vontade de Deus, como também cumpri-la. Jesus disse, “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis se as fizerem.” (Jo 13.17)

Há muitos textos na Bíblia que nos advertem acerca da sutileza de Satanás. Os crentes necessitam ser fortalecidos para resistirem a Satanás. Em seguida citaremos alguns textos da Bíblia que nos advertem acerca de Satanás. O primeiro texto é 2 Co 2.11: “Para que Satanás não obtenha vantagem alguma sobre nós; pois não ignoramos os seus desígnios”. O apóstolo disse que sabe bem acerca das maquinações satânicas para danar aos crentes. Paulo estava consciente das distintas formas que Satanás usa para prejudicar aos crentes.

O segundo texto é Ef 6.11: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus para poderdes estar firmes contra as ciladas do diabo”. Paulo disse aos crentes que fossem como soldados, colocando a sua armadura para protegerem-se de seu inimigo. Paulo sabia que Satanás atacaria aos crentes de muitas maneiras diferentes. Às vezes fará armadilhas para atacá-los de repente, sem advertência. Em outras ocasiões buscará desviar-lhes do caminho e os atacará quando estiverem confusos. Também lhes tentará com uma armadilha de falsa segurança, para que depois lhes ataque quando estiverem desprevenidos. Satanás em todas estas maquinações deseja ferir o povo de Deus e conseguir que deixem de trabalhar e pelejar na causa de Deus. Os crentes necessitam da armadura e da força de Deus para lutar contra Satanás.

O terceiro texto é 2 Tm 2.26: “livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade”. Aqui o apóstolo Paulo se refere a pessoas que estão sendo levadas cativas como prisioneiras de guerra. Os prisioneiros sentem-se desesperados, sem nenhum poder para livrarem-se e estão sujeitos à vontade de outro. Do mesmo modo Satanás quer conseguir que os crentes sejam seus prisioneiros. Esta palavra é usada também para referir-se às aves quando são presas numa gaiola. Satanás quer que os crentes se sintam assim.

Tenham muito cuidado com as artimanhas de Satanás. Não se esqueçam de que Satanás é um inimigo forte e cruel, que se opõe a todos os verdadeiros crentes. Ele quer prejudica-los e fazer com que se tornem inúteis para o reino de Deus.

08 novembro 2017

O ofício de presbítero - por Geerhardus Vos

Nós chegamos aos ofícios ordinários. Aqui diferentes questões devem ser discutidas:
(a) A relação que os ofícios de ancião (presbítero) e bispo ou superintendente (episkopos) mantêm um com o outro, e se é um e o mesmo ofício.
(b) A relação em qual o ofício de pastor (poimēn) é nos dois mencionados (a); isto é, se dentro do presbiterato há uma distinção entre aqueles que são pastores e aqueles que não são pastores. (c) A questão relativa ao ofício de mestre e se este era um ofício particular, distinto do ofício de pastor. (d) A questão concernente ao ofício de diáconos e diaconisas. (e) A questão acerca do chamado aos ofícios e a forma como alguém é investido no ofício.

a) A relação entre o episcopado e o presbiterato. Os que advogam o sistema episcopal dizem que os dois ofícios de bispo e presbítero são diferentes. Os bispos são superiores aos presbíteros. Eles têm o poder de ordenar e governar os presbíteros. Estes não podem se ordenar. Há quem vá mais longe, como vimos, e faz dos bispos os sucessores dos apóstolos. Em antítese, postulamos a tese: o bispo e o presbítero, o superintendente e os anciãos indicam plenamente o mesmo ofício. Um superintendente é um ancião e um ancião é um superintendente. Se houvesse uma distinção no presbiterato e no ofício de supervisão, isso não teria nada a ver com o duplo nome. Nomeiam-se os dois tipos de anciãos tanto para os supervisores como os presbíteros. É relatado que Paulo (Atos 20:17) convocou os anciãos da igreja de Éfeso e depois, referiu-se a eles como superintendentes (20:28). Em Filipenses 1:1, os supervisores aparecem ao lado dos diáconos, como em outros lugares os anciãos estão ao lado dos diáconos (veja também 1 Tm 3: 2 com 3: 8); “Que você deve nomear anciãos de cidade em cidade” (Tt 1: 5) e “um superintendente deve ser reprovado” (1:7). Consequentemente, nada é mais claro do que a identidade desses dois ofícios. A única diferença reside nesses dois pontos: ancião (presbítero) é um termo judaico derivado da sinagoga, e que foi administrada pelos homens mais velhos; o supervisor (episkopos) é um termo grego. Ancião refere-se à dignidade do ofício, supervisor é o seu trabalho.

b) A segunda das questões acima diz respeito à distinção dentro do próprio presbiterato. Havia dois tipos de anciãos? Parece que em 1 Timóteo 4:14, havia uma pluralidade de anciãos numa mesma igreja, e que eles formavam uma equipe, um colegiado, um “presbitério”, eram “anciãos”. Em 1 Timóteo 5:17, parece que havia anciãos que trabalhavam na Palavra e no ensino, e também anciãos que não estavam ocupados com tal trabalho. A distinção entre anciãos docentes e anciãos regentes baseia-se nisso.

Teremos que pensar sobre o assunto da seguinte forma. Originalmente toda a ênfase acerca do ancião recaiu sobre o governo, mantendo a supervisão. A razão para isso foi que o ofício extraordinário de profecia e o extraordinário dom (charismata) em geral, bem como a presença contínua dos apóstolos e evangelistas tornaram a necessidade de um ofício ordenado de mestre menos visível. Os anciãos podiam ensinar e falar a Palavra, mas havia outros além destes que também ensinavam e profetizavam na congregação. Mais tarde, quando os dons extraordinários diminuíram, surgiu a necessidade de um ofício normativo de mestre. Nas epístolas pastorais de Paulo, isso aparece como uma estrutura estabelecida. Ainda assim, parece-nos que isso deriva muito das informações que argumentam que todos os anciãos não eram livres para atuarem no ensino na congregação. Somente tem-se esta certeza: havia um número de anciãos que tinham o dever específico de ensinar. Os outros poderiam a liberdade, mas eles não teriam o dever. Por isso, de fato, a distinção reformada entre dois tipos de anciãos é legitimada em princípio.

Para leitura do texto completo veja AQUI.

04 novembro 2017

Uma orientação cristã - por Samuel Rutherford

1. Que algumas horas do dia, em menor ou maior tempo, com a Palavra e a oração, sejam separadas para Deus; não evitando a duodécima hora, ou o meio do dia, mas que seja, então, dedicado um período mais curto.
2. Em meio as atividades mundanas, deve-se ocupar com alguns pensamentos sobre o pecado, morte, julgamento e eternidade, com pelo menos uma ou duas palavras de oração espontâneas a Deus.
3. Tenha cuidado com a inconstância do coração na oração privada.
4. Não se deixe dominar pela má vontade, se ao terminar a oração você se encontre sem o sentimento de alegria. A contrição, sentimentos de culpa e a ansiedade, são muitas vezes melhores para nós.
5. Que o Dia do Senhor, da manhã até a noite, seja sempre ocupado com o culto público ou privado.
6. Que as palavras sejam observadas, os pensamentos fúteis e ociosos sejam evitados, bem como a raiva repentina e desejos de vingança, mesmo que por causa da perseguição da verdade. Guarde-se contra tais pensamentos, pois muitas vezes misturamos nosso zelo com nosso fogo selvagem.
7. Que os pecados conhecidos, descobertos e revelados, que são contra a consciência, sejam evitados, prevenindo-se contra os mais perigosos meios para a dureza do coração.
8. Que ao lidar com os homens a fé e a verdade em acordos e negócios sejam consideradas, para que lidemos com todos os homens com sinceridade; que a consciência evite palavras vazias e mentirosas; e que nossa conduta seja tal, que os que a vejam, falem honradamente de nosso doce Mestre e do nosso testemunho de fé.

23 outubro 2017

O Pacto Nacional da Igreja da Escócia (1638)

Em fevereiro de 1638, os presbiterianos na Escócia enfrentavam acusações de traição pelo rei, por causa de seus protestos contra os bispos, o Livro dos Cânones e o Livro da Oração Comum. Eles decidiram que precisavam de um meio de se unirem para que pudessem permanecer firmes contra esses ataques em sua religião.

Eles concordaram em renovar a "Confissão do Rei", de 1581, com duas seções extras. Esta era uma seção legal que incluía mais de sessenta atos do Parlamento (muitos contra o catolicismo romano) que apoiavam a causa presbiteriana e uma aplicação prática. A seção legal foi escrita por Archibald Johnston de Wariston e a aplicação prática por Alexander Henderson.

O Pacto Nacional comprometeu aqueles que juraram defender a verdadeira religião contra inovações, como as que foram recentemente introduzidas, que eram contra a Bíblia, os ensinamentos dos Reformadores e os atos do Parlamento listados - e que levariam ao catolicismo romano . A intenção deste oacto era manter "a verdadeira adoração de Deus, a majestade do nosso Rei e a paz do reino", pela felicidade daqueles que juraram e seus filhos. Eles também prometeram terem vidas que mostrariam que estavam em aliança com Deus e serem bons exemplos para os outros.

O Pacto foi assinado pela primeira vez no cemitério de Greyfriars, em Edimburgo, em 28 de fevereiro de 1638, depois de ouvidas e respondidas quaisquer objeções. Dentro de dias fora assinado pelo povo de Edimburgo e cópias foram enviadas ao redor do país para que outras pessoas assinassem. Em algumas semanas fora assinado por pessoas em toda a região baixa [sul] da Escócia, incluindo quase todos os nobres. O Pacto fez um progresso mais lento no norte da Escócia, mas muitos finalmente o assinaram. Assinar o Pacto não era rebelião, mas um apelo à lei da terra contra a tirania do rei. Assinar era dizer que Jesus Cristo era o único chefe da Igreja, e assim deveria ser livre de qualquer controle do rei ou do governo. A primeira Assembleia Geral livre por 36 anos foi realizada em Glasgow, em novembro.

Traduzido do site Reformation History

14 outubro 2017

William Greenough Thayer Shedd (1820-1894)

por M. A. Noll[1]

William Shedd foi o maior sistematizador, depois de Charles Hodge, da teologia calvinista americana entre a Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial. O seu pai foi um ministro congregacional que encorajou a sua educação na Vermont University e no Andover Theological Seminary. Em Vermont, Shedd estudou aos pés de James Marsh, que o encorajou a ler Platão, Kant e Coleridge, um trio de autores que mantiveram uma influência em sua teologia pelo resto de sua vida. Shedd serviu, por um breve período, como ministro congregacional em Vermont. Ensinou inglês na Vermont University, retórica sagrada no Auburn Theological Seminary e história da igreja em Andover, antes de assumir o serviço ministerial, como pastor-auxiliar na Brick Presbyterian Church, em Nova Iorque. Em 1863 ele se tornou um professor de Bíblia e teologia no Union Theological Seminary, em Nova Iorque, onde permaneceu por mais de trinta anos.

A obra mais conhecida, dentre as muitas de Shedd, foi a Dogmatic Theology,[2] publicada originalmente em três volumes, entre 1888 a 1894. Como a Teologia Sistemática[3] (1872–73) de Hodge, o manual de teologia sistemática de Shedd defende o “alto Calvinismo” da Confissão de Westminster contra o arminianismo, o catolicismo romano e o racionalismo moderno. Shedd não foi tão abrangente quanto Hodge no tratamento das várias divisões da teologia, mas ele incorporou aspectos do pensamento moderno em sua obra mais do que Hodge ou quase qualquer outro conservador de sua geração, especialmente ideias de desenvolvimento histórico. Novamente ele foi incomum em sua confiança sobre a história do Cristianismo como um antídoto para os ensinos medíocres, quer antigos, quer modernos. Para ele, Atanásio sobre a Trindade, Agostinho sobre a natureza do pecado, Anselmo sobre a existência de Deus e os reformadores sobre a salvação, eram mais do que capazes de delinear os contornos da ortodoxia. Ele sabia que a tradição agostiniana-calvinista carregava amplos recursos bíblicos, teológicos e filosóficos para suportar o teste do tempo.

Os interesses de Shedd se estenderam bem além da teologia, abrangendo a literatura, a história da igreja, a homilética e o comentário bíblico. Ele publicou obras em cada uma dessas áreas. Testificou o seu interesse na ideia do desenvolvimento histórico orgânico ao publicar Lectures on the Philosophy of History, em 1856, e editando as obras completas de Samuel Taylor Coleridge, publicada em sete volumes, em 1853.

NOTAS:

[1] J. De Witt, “William Greenough Thayer Shedd,” PRR 6:295–332. Traduzida por: Felipe Sabino de Araújo Neto e revisada por Ewerton B. Tokashiki.
[2] Encontra-se disponível uma nova edição com notas, num único volume. Alan W. Gomes, ed., William G.T. Shedd, Dogmatic Theology (Phillipsburgh, P&R Publishing, 3ª ed., 2003). Nota do revisor.
[3] Publicada pela Editora Hagnos. Nota do revisor.

13 outubro 2017

Honestidade e honra denominacional - William G.T. Shedd

A honestidade é tão importante na teologia como nos negócios e no comércio, numa denominação religiosa como em um partido político. A honestidade confessional consiste, em primeiro lugar, em uma clara e inequívoca declaração de uma Igreja acerca de sua crença doutrinária; e, segundo, numa adoção inequívoca e sincera por parte de seus membros. Ambas as coisas são necessárias. Se uma denominação particular faz uma declaração ampla de sua crença, que é possível de ser interpretada em mais de um sentido, ela é desonesta. Se o credo da denominação é bem estruturado e elaborado, mas os membros que subscrevem com reserva mental e falta de sinceridade, a denominação é desonesta.[1]

A honestidade e a sinceridade são fundamentadas numa clara convicção e uma clara convicção é firmada no conhecimento e no reconhecimento da verdade. A heresia é um pecado e é classificada por são Paulo entre as “obras da carne”, juntamente com “adultério, idolatria, assassinato, inveja e ódio”, que excluem do reino de Deus (Gl 5:19-21). Mas a heresia não é um pecado tão grande quanto a desonestidade. Pode existir uma heresia honesta, mas não uma honesta desonestidade. Alguém que reconhece ser um herege, é um homem melhor do que aquele que finge ser ortodoxo enquanto subscreve um credo que despreza, e que ele finge sob pretexto de melhorá-lo e adaptá-lo ao tempo presente. O herege honesto deixa a igreja com a qual ele não concorda, mas o subscritor insincero permanece dentro dela para realizar o seu plano de desmoralização.

As discussões recentes na Igreja Presbiteriana revelaram uma diferença de sentimento em relação ao valor da honestidade denominacional. Alguns dos jornais seculares atribuem intolerância e perseguição aos presbiterianos, quando os desvios do credo da igreja são objeto de inquérito judicial e quando indivíduos são exigidos a conformar o seu ensino do púlpito ou da cátedra com os padrões denominacionais. Desta forma, uma parte da imprensa pública está em consonância com a desonestidade confessional. Isso permitiria aos oficiais da igreja subscreverem um credo e obter as vantagens da subscrição sob a forma de reputação ou benefícios, enquanto trabalham contra ele.

O credo de uma igreja é um contrato solene entre os membros da igreja, muito mais do que a ideologia de um partido político é entre políticos. Parte da imprensa parece não perceber a imoralidade de violar um contrato quando se trata de uma denominação religiosa, mas quando um partido político é o grupo a ser afetado pela violação de uma promessa, ninguém é mais preciso do que ela em discernir e nenhum deles é mais veemente em denunciar a dupla negociação.

Deveria surgir um grupo dentro do Partido Republicano, por exemplo, e se esforçar para alterar a plataforma, mantendo os escritórios e os salários garantidos por professar fidelidade ao partido e prometendo adotar os princípios fundamentais sobre os quais foi fundado, e pelos quais difere do Partido Democrático e demais partidos políticos, a acusação de desonestidade política poderia prejudicar a posição social e histórica do Republicanismo. Quando esses divergentes se desviam do cargo, sendo disciplinados pelo partido, e talvez, sejam expulsos da organização política, se a queixa de heresia política e a perseguição fossem oferecida, a única resposta concedida pela imprensa republicana seria a do desprezo. Quando alguns políticos desonestos reivindicam a tolerância, sob a desculpa de políticas mais “liberais” do que as aceitas pelo partido, preservando-se o pagamento do partido, enquanto defende diferentes sentimentos da maioria do partido, o fato é que ninguém é obrigado a unir-se ao Partido Republicano, ou permanecer nele, mas se uma pessoa se juntar a ele ou ficar nele, deve adotar estritamente o credo do partido e não fazer tentativas, seguras ou abertas, de alterá-lo. Que um credo republicano pertence aos republicanos e a nenhum outro, parece ser a concordância por todos. Mas que um credo calvinista é para calvinistas e de nenhum outro, parece suscitar dúvidas de alguns.

Há defensores de uma visão de igreja confessional e de uma subscrição confessional que argumentam que é apropriado introduzir melhorias num credo denominacional. Que o progresso na física e no espírito da nossa época exigem novas declarações de ética e religião. E isso justifica o surgimento dentro de uma denominação de um grupo para fazê-los, e exige que a denominação atente e analise com calma. Isto significa, por exemplo, que uma igreja que adota a escatologia histórica é obrigada a permitir que os seus membros pensem que o restauracionismo[2] é uma melhoria, e que poderiam introduzi-lo nos artigos de fé. Ou que uma igreja que adota o arminianismo wesleyano é obrigada a permitir que seus membros pensem que a eleição incondicional seja preferível a eleição condicional, esforçando para torná-la calvinista, introduzindo esse princípio doutrinário.

Mas se uma liberdade correspondente fosse exigida na esfera política, não haveria nenhuma aceitação. Se dentro do Partido Democrata surgisse um grupo que reivindicasse o direito, enquanto membros no partido, para converter o corpo em princípios e medidas republicanas, se diria que o lugar apropriado para tal projeto está fora do Partido Democrata, e não nele. O direito do grupo divergente às suas próprias opiniões não seria contestado, mas seria negado o direito de mantê-las e espalhá-las com os recursos financeiros e a influência do Partido Democrata. Os democratas poderiam usar a ilustração de Lutero num exemplo semelhante: “Não podemos evitar que as aves voem sobre nossas cabeças, mas podemos impedir que elas façam seus ninhos nos nossos cabelos”. Eles diriam aos mal-intencionados: “Não podemos impedir que vocês tenham suas próprias visões peculiares e indesejáveis, mas vocês não têm o direito de ventilá-las em nossa organização”. Se os executivos da Alfândega de New York ou dos Correios insistissem em usar os salários dessas grandes instituições na transformação da política do partido que os colocou lá, nenhuma acusação de “perseguição” impediria o partido de cobrar imediatamente a sua coerência. No entanto, alguns da imprensa secular, bem como alguns religiosos, afirmam que é apropriado para os subscritores da Confissão de Westminster fazerem uma alteração radical na teologia denominacional dentro da denominação, e que estão reprimindo o livre pensamento e o direito de juízo privado, quando o sete-oitavos de representantes da Igreja Presbiteriana vetou sobre tal tentativa em seu tribunal da Assembleia Geral.

Nesta ação eclesiástica não há negação do direito de juízo privado e de livre pensamento sobre qualquer sistema de doutrina. Apenas afirma que aqueles que discordam do credo aceito pela denominação, se forem minoritários, devem sair dela, se desejarem construir um novo esquema doutrinário. A maioria satisfeita tem o direito de exercer o livre pensamento e o juízo privado, bem como a minoria insatisfeita, mas na sua prática permanece o credo como está. Consequentemente, se o descontentamento com o padrão denominacional surgir na mente de alguns, o lugar apropriado para seus novos experimentos em teologia, está dentro de uma nova organização e não na antiga que não concorda com as suas especulações. Por esta razão, desde tempos imemoriais, uma denominação religiosa sempre reivindicou o direito de expulsar pessoas que são hereges, conforme julgados pelo credo denominacional. Só assim pode uma denominação viver e prosperar. Não seria útil para a sociedade ou a religião derrubar os limites doutrinários da denominação e convertê-la numa “terra de ninguém” para que todas as variedades de crenças divaguem.

Aqui surge a questão: quem deve interpretar o credo da igreja e dizer se um esquema proposto de doutrina concorda com ele, ou o contradiz? Quem poderia dizer o que é heresia do ponto de vista do sistema denominacional? Certamente a denominação, e não o indivíduo ou o grupo que é acusado de heresia. Este é um ponto de grande importância. Para aqueles que são acusados de heterodoxia, comumente definem a ortodoxia a seu modo e afirmam não se afastarem do que eles consideram como os elementos essenciais do sistema denominacional. O partido arminiano na controvérsia do Sínodo de Dort alegou que as suas modificações na doutrina eram moderadas e não antagônicas aos credos reformados. Os semiarianos na Igreja Inglesa afirmaram que a sua concepção da Trindade não diferia essencialmente da dos pais nicenos. Em cada uma dessas instâncias, o acusado queixou-se de que suas declarações foram erroneamente interpretadas por seus oponentes, afirmando que a Igreja estava equivocada ao supor que sua heterodoxia não poderia ser harmonizada com a fé herdada. A mesma afirmação de ser mal interpretada e a mesma reivindicação de ser ortodoxa, marca o julgamento existente na Igreja Presbiteriana.

Ao determinar qual é o verdadeiro significado da fraseologia em uma proposta de alteração do credo denominacional, e qual será a influência natural dela se for permitido ensiná-la, é óbvio de que é a denominação quem decide. No caso de uma diferença na compreensão e interpretação de um documento escrito contendo mudanças propostas no credo da igreja, a regra da lei comum aplica-se, que o acusado não pode ser o juiz final do significado e disposição do seu próprio documento, mas sim o tribunal. A denominação é o tribunal. Não há dificuldades ou injustiças nisso. Um julgamento denominacional é correto para ser equitativo, ocorra ele na Igreja ou no Estado. A história da política mostra que as decisões dos grandes partidos políticos respeitando o verdadeiro significado de suas ideologias e a conformidade dos indivíduos a elas, geralmente, foram corretas. A história da religião também mostra que os julgamentos dos grandes grupos eclesiásticos agiram corretamente em relação aos ensinos de seus padrões, e o acordo ou desacordo das escolas particulares de teologia com eles. Os indivíduos e os partidos foram declarados heterodoxos, política ou teologicamente, pelo voto deliberado do corpo ao qual pertenciam. É raro que a maioria estivesse errada e correta minoria.

A honestidade confessional é intimamente relacionada com a honra denominacional. As igrejas que foram as mais francas em anunciar o seu credo, bem como as mais rigorosas em insistir numa interpretação honesta e a sua adoção por parte de seus membros, caracterizaram-se por uma escrupulosa consideração pelos direitos de outras igrejas. Estando satisfeitos com sua própria posição doutrinária e confiantes da verdade de seus artigos de fé, eles não invadiram outras denominações para alterar seu credo ou obter seu prestígio. A este respeito, os calvinistas da cristandade se comparam favoravelmente com alguns de seus oponentes que os acusam de obscurantismo e intolerância. É verdade que, nos tempos em que a união da Igreja e do Estado era universal, e a propagação de qualquer outra religião, exceto a do Estado, era considerada ameaçadora para o bem político, os calvinistas como todos os outros partidos religiosos tentaram suprimir todos os credos senão o estabelecido.

Mas os calvinistas estavam na vanguarda a favor da separação da Igreja e do Estado e pela tolerância religiosa que resultaria naturalmente. Desde que a tolerância religiosa se tornou o princípio da cristandade e tornou-se dominante o direito protestante do juízo privado, o calvinismo não foi intolerante ou disposto a interferir nos credos, instituições e benefícios de outros grupos. A este respeito temos um bom exemplo. Não há exemplos registrados, que nos lembremos, de que calvinistas secretamente adulteraram o credo de outro corpo eclesiástico e tentaram seduzir os seus membros de sua lealdade aos artigos de crença por eles adotados publicamente. De sua própria posição calvinista aberta e declarada, eles, naturalmente, criticaram e se opuseram a outros credos, porque acreditavam que eles eram mais ou menos errôneos, mas nunca adotaram a estratégia de se infiltrar noutra denominação, subscrevendo os seus artigos e, em seguida, a partir dessa posição, revolucionar o grupo que professou sinceramente se juntar. Nenhuma parte da cristandade foi mais livre de hipocrisia e dissimulação do que as igrejas calvinistas.


NOTAS:
[1] Os parágrafos foram subdivididos para facilitar a compreensão dos argumentos. Nota do tradutor.
[2] O termo em seu uso teológico pode referir-se a premissa histórico-teológica de que o cristianismo se apostatou em pontos essenciais de sua identidade doutrinária, sendo necessário restaurá-lo. Steven L. Ware, de modo confuso, define “restauracionismo é um complexo de ideias que, implícito e comum a todo o protestantismo (...) é essencialmente sinônimo de primitivismo”. Veja “Restorationism in Classical Pentecostalism” em New Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements (Grand Rapids, Zondervan, 2002). Neste sentido, em parte, a reforma protestante foi restauracionista, mas a sua reivindicação é de um retorno ao ensino da Escritura Sagrada e não ao modelo da igreja primitiva. A igreja no primeiro século passou pela transição da aliança, dentro dum processo que culminou na cessação dos agentes e modalidades revelacionais, bem como da transmissão de novas revelações. A igreja primitiva não foi o modelo final, tanto pelos diferentes problemas e imperfeições Sitz im Leben que evidenciava, como também ela não poderia ser considerada madura até que se consumasse a transição. O fechamento do cânon do Novo Testamento, o fim do apostolado e a consumação da estrutura da nova aliança, somente ocorreram no fim do primeiro século. Por isso, o modelo de igreja é determinado por princípios bíblicos e não por um exemplarismo histórico. Shedd usa o termo restauracionismo, em seu sentido negativo, para se referir a grupos heréticos que surgiram em sua época como o adventismo, o mormonismo e as testemunhas de Jeová. O pentecostalismo surge no início do século XX como uma proposta restauracionista. Nota do tradutor.

William G.T. Shedd, Calvinism: Pure and Mixed – A Defense of the Westminster Standards (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1986), pp. 152-158.
Tradução e notas por Ewerton B. Tokashiki

20 setembro 2017

A doutrina da Igreja Católica Romana de servir um elemento na Eucaristia

Quando e com qual fundamento a Igreja Católica Romana, no ato da Eucaristia, distribui apenas a óstia, negando aos fiéis o cálice do vinho? Recorrendo aos seus documentos oficiais este breve artigo intenciona responder a questão.

A decisão de dar apenas o pão ocorreu no Concílio de Constança, que é o 16º ecumênico, de 5 Novembro de 1414 à 22 Abril de 1418, na sessão 13ª, de 15 Junho de 1415, no Decreto Cum in nonnullis, confirmado pelo Papa Martinho V, em 1 Setembro de 1425. Este decreto é repetido nas constituições de In eminentis de 1 Setembro de 1425 (BarAE, ao ano de 1425, n. 18 / Theiner 28,27) e Apostolicae sedis praecellens de 25 de Janeiro de 1426, declarando que

em algumas partes do mundo, alguns ousam temerariamente afirmar que o povo cristão deve receber o santo sacramento da Eucaristia sob as duas espécies do pão e do vinho e fazem comungar em geral a assembleia dos leigos não só com a espécie do pão, mas também com a do vinho, inclusive depois da refeição ou doutro modo sem jejum. Eles sustentam obstinadamente que este é o modo de se comungar, opondo-se ao louvável costume da Igreja, justificado também racionalmente, que de modo condenável procuram reprovar como sacrílego: por isso, este Concílio … declara, decreta e define que, se bem que Cristo tenha instituído e administrado depois da refeição aos apóstolos este venerando sacramento sob ambas as espécies do pão do vinho, não obstante isso, a admirável autoridade dos sagrados cânones e o autorizado costume da Igreja têm declarado e declaram que este sacramento não deve ser administrado depois da refeição nem a fiéis que não estão em jejum, salvo no caso de doença ou de outra necessidade, concedido ou admitido pelo direito ou pela Igreja. E como este costume foi introduzido, com razão, para evitar perigos e escândalos, com análoga ou maior razão foi introduzido e observado este outro: se bem que na Igreja primitiva este sacramento era recebido pelos fiéis sob ambas as espécies, mais tarde, porém, era recebido pelos consagrantes sob ambas as espécies, mas pelos leigos somente sob a espécie do pão, pois é preciso crer com toda a firmeza e sem sombra de dúvida que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeiramente contidos, na sua integridade, tanto sob a espécie do pão, como sob a do vinho. Portanto, visto que foi introduzido com boa razão pela Igreja e pelos santos Padres e observada durante muitíssmo tempo, este costume deve ser considerado como uma lei que não pode ser reprovada nem modificada arbitrariamente, sem o consentimento da Igreja. É errôneo sustentar que a observância deste costume ou lei é sacrílega ou ilícita; e os que se obstinam em sustentar o contrário devem ser tratados como hereges ....[1]

No Concílio de Trento [1545-1563] houve a ratificação da prática estabelecida no Concílio de Constança, conforme decisão abaixo:

Doutrina da Comunhão sob Ambas Espécies e da Comunhão das Crianças
Tendo presente o Sacrossanto, Ecumênico e Geral Concílio de Trento, reunido legitimamente no Espírito Santo e presidido pelos mesmos Legados da Sé Apostólica, os vários e monstruosos erros que pelos malignos artifícios do demônio aparecem em diversos lugares acerca do Imenso e Santíssimo Sacramento da Eucaristia, pelos quais, parece que em algumas províncias, muitos se apartaram da fé e obediência à Igreja Católica, teve por bem expor agora a doutrina respectiva da Comunhão em ambas as espécies e a comunhão das crianças.

Com esta finalidade, proíbe a todos os fiéis cristãos o atrevimento, de ora em diante, de crer, ensinar ou pregar acerca da Comunhão, de qualquer outro modo que não seja o que é definido nos presentes decre-tos:

Cap. I - Os leigos e clérigos que não celebram, não estão obrigados, por direito divino, a comungar sob as duas espécies
Em continuidade, o mesmo Santo Concílio, ensinado pelo Espírito Santo, que é o Espírito de Sabedoria, Inteligência, Conselho e Piedade, e seguindo o ditame do costume da Igreja, declara e ensina que os leigos e os clérigos que não celebram a missa, não estão obrigados, por preceito divino algum, a receber o Sacramento da Eucaristia sob as duas espécies, e que não cabe, absolutamente, dúvida nenhuma, sem faltar à fé, que lhes basta, para conseguir a salvação, a comunhão de apenas uma das espécies. Pois, ain-da que Cristo, nosso Senhor, tenha instituído na última ceia este venerável Sacramento nas espécies do pão e do vinho, e o tenha dado a Seus Apóstolos, sem dúvida, não tem por finalidade aquela instituição e comunhão estabelecer a obrigação de que todos os fiéis cristãos devam receber devido a esse estabele-cimento de Jesus Cristo, uma e outra espécie. Nem tampouco se faça a coligação a bem do sermão que se acha no capítulo sexto de São João, que o Senhor mandasse, sob o preceito da comunhão das espé-cies, de qualquer modo que se entenda, segundo várias interpretações dos Santos Padres e Doutores, pois o mesmo que disse "Se não comeres a carne do filho do homem, nem beberes seu sangue, não terás a própria vida", disse também: "Se alguém comer deste pão, viverá eternamente". E aquele que disse: "Quem come Minha carne e bebe Meu sangue, consegue a vida eterna", disse também: "O pão que Eu darei, é Minha carne, que darei para vivificar o mundo". E finalmente, quem disse "Quem come de mi-nha carne e bebe do meu sangue, fica em Mim e Eu nele", também disse: "Quem come este pão viverá eternamente".

Cap. II - Do poder da Igreja para dispensar o Sacramento da Eucaristia
Declara também que na administração de seus Sacramentos, sempre teve a Igreja, poder para estabelecer ou mudar, salvada sempre a essência deles, quando tiver julgado ser o mais conveniente, de acordo com as circunstâncias das coisas, tempos e lugares, à utilidade dos que recebem os Sacramentos, ou à sua veneração. É exatamente isso que parece que insinuou o Apóstolo São Paulo, quando disse: "Devemos ser reputados como ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus". E consta que muitas vezes o mesmo Apóstolo fez uso desse poder, tanto a respeito de outros pontos como dos Sacramentos, pois disse, quando fez regras a respeito de seu uso: "quando cheguar a hora, darei ordens ao restante". Portanto, reconhecendo a Santa Mãe Igreja esta autoridade que tem na administração dos Sacramentos, mesmo tendo sido freqüente o uso de comungar sob as duas espécies, desde o princípio da religião cris-tã, porém verificando, em muitos lugares, com o passar do tempo, a mudança nesse costume, aprovou, movida por muitas graves e justas causas, a comunhão sob uma só espécie, decretando que isso fosse observado como lei, a qual não é permitido mudar ou reprovar arbitrariamente sem a autorização expres-sa da Igreja.

Cap. III - Que Cristo é recebido por inteiro e também verdadeiro Sacramento em qualquer uma das espécies
Declara o santo Concilio depois disto, que ainda que nosso Redentor, como já disse antes, instituiu na última ceia este Sacramento nas duas espécies, e o deu a seus Apóstolos, se deve confessar porém, que também se recebe em cada uma única espécie a Cristo todo e inteiro e verdadeiro Sacramento. E que por conseguinte, as pessoas que recebem uma única espécie, não ficam prejudicadas a respeito do fruto de nenhuma graça necessária para conseguir a salvação.

[...]

Cânones da Comunhão sob Ambas Espécies e da Comunhão das Crianças
Cân. I - Se alguém disser que todos e cada um dos fiéis cristãos estão obrigados por preceito divino ou por necessidade de conseguir a salvação, a receber as duas espécies do Santíssimo Sacramento da Euca-ristia, seja excomungado.
Cân. II - Se alguém disser que não teve a Santa Igreja Católica, causa nem razões justas para dar a co-munhão apenas sob uma das espécie aos fiéis leigos, assim como aos clérigos que não celebram, ou que erra nisto, seja excomungado.
Cân. III - Se alguém negar que Cristo, Fonte e Autor de todas as graças, é recebido todo e inteiro sob a única espécie do pão, dando por razão, como falsamente o afirmam alguns, que não se recebe segundo o estabeleceu o mesmo Jesus Cristo, nas duas espécies, seja excomungado.
Cân. IV - Se alguém disser que é necessária a comunhão da Eucaristia às crianças antes que cheguem ao uso da razão, seja excomungado.
O mesmo Santo Concílio reserva para outro tempo, e será quando se lhe apresente a primeira ocasião, o exame e definição dos artigos já propostos, mas que ainda não foram discutidos, a saber:
Se as razões que induziram a Santa Igreja Católica a dar a Comunhão em uma única espécie aos leigos, assim como aos clérigos que não celebram, devem de tal modo subsistir e que por motivo nenhum seja permitido a ninguém o uso do cálice.
E também: Se em caso que pareça dever-se conceder a alguma nação ou reino, do cálice por razões prudentes e conformes com a caridade cristã, deverá ser concedida sob algumas condições, e quais são elas.[2]

O afastamento da Igreja Reformada ocorre por esta e outras tantas doutrinas e práticas da Igreja Católica Romana. A Reforma restaurou a distribuição de ambas as espécies para todos os participantes da Ceia do Senhor.

NOTAS:
[1] Heinrich Denzinger & Petrus Hünermann, Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral (São Paulo, Editora Paulina e Edições Loyola, 2007), pp. 347-348.
[2] Philip Schaff, "The Canons and Dogmatic Decrees of the Concil of Trent" in: The Creeds of Chistendom - with a history and critical notes (Grand Rapids, Baker Books, 6a ed., 2007), vol. 2, pp. 170-176.

19 setembro 2017

Declaração de Nashville - sobre sexualidade

Declaração publicada pelo Conselho sobre a Masculinidade e Feminilidade Bíblica no dia 29 de agosto de 2017 na cidade de Nashville, EUA.


Preâmbulo


“Sabei que o Senhor é Deus; foi ele que nos fez, e não nós a nós mesmos; somos povo seu e ovelhas do seu pasto…“ – Salmos 100:3

Cristãos Evangélicos, na aurora do século XXI, encontram-se em um momento de transição histórica. Como a cultura ocidental tem se tornado cada vez mais pós-Cristã, ela tem embarcado em uma revisão massiva do significado do que é ser humano. De um modo geral, o espírito de nossa época, não percebe ou se deleita mais com a beleza do projeto de Deus para a vida humana. Muitos negam que Deus criou o ser humano para a sua glória, e que os seus bons propósitos para conosco incluem o nosso modelo físico e pessoal como masculino e feminino. É comum pensar que a identidade humana como masculina e feminina não seja uma parte do maravilhoso plano de Deus, mas é, e é mais do que um expressão individual de suas preferências autônomas. O caminho para a alegria completa e duradoura através do bom projeto de Deus para suas criaturas é então substituído pelo caminho de alternativas míopes que, mais cedo ou mais tarde, arruinam com a vida humana e desonram a Deus.

Este espírito secular de nossa época apresenta um grande desafio para a igreja Cristã. A igreja do Senhor Jesus Cristo perderá sua convicção, clareza e coragem bíblica, e se misturará ao espírito da época? Ou ela se manterá firme à palavra da vida, suscitará coragem através de Jesus, e despudoradamente proclamará o seu modo como o caminho da vida? Ela preservará o seu testemunho transparente, contracultural para um mundo que parece caído em ruína?

Estamos convencidos de que a fidelidade em nossa geração significa declarar mais uma vez, a verdadeira história do mundo e de nosso lugar nele – particularmente como masculino e feminino. As Escrituras Cristãs ensinam que existe apenas um Deus, e que é o Criador e Senhor de tudo. Somente a ele, uma pessoa deve agradecimento alegre, adoração sincera e total lealdade. Este é o caminho não só para glorificar a Deus, mas também para conhecer a si mesmo. Esquecer do nosso Criador é esquecermo-nos de nós mesmos, pois ele nos fez para ele mesmo. E nós não podemos nos conhecer verdadeiramente sem conhecemo-Lo verdadeiramente. Nós não nos fizemos. Nós não somos de nós mesmos. Nossa verdadeira identidade, como pessoas masculinas e femininas, é dada por Deus. Não é apenas tolo, como também inútil, tentarmos fazer de nós mesmos o que Deus não nos criou para ser.

Nós acreditamos que o projeto de Deus para a criação e o seu caminho de salvação servem para levar a ele a glória maior e trazer a nós o bem maior. O plano bom de Deus nos fornece a liberdade maior. Jesus disse que ele veio para que nós possamos ter uma vida abundante. Ele é por nós e não contra nós. Portanto, na esperança de servir à igreja de Cristo e testemunhar publicamente para os propósitos bons de Deus para a sexualidade humana revelada nas Escrituras Cristãs, nós oferecemos as seguintes afirmações e negações.

Artigo I

NÓS AFIRMAMOS que Deus designou o casamento para ser uma união pactual, sexual, procriativa, vitalícia entre um homem e uma mulher.

NÓS NEGAMOS que Deus designou o casamento para ser uma relação homossexual, poligámica ou poliamorosa. Nós também negamos que o casamento seja uma mero contrato humano, e não um pacto feito diante de Deus.

Artigo II

NÓS AFIRMAMOS que a vontade de Deus revelada para todas as pessoas é a castidade fora do casamento e a fidelidade dentro do casamento.

NÓS NEGAMOS que qualquer afeição, desejo ou compromisso justifiquem o ato sexual, seja antes ou fora do casamento; ou que justifiquem qualquer forma de imoralidade sexual.

Artigo III

NÓS AFIRMAMOS que Deus criou Adão e Eva, os primeiros seres humanos, à sua imagem, iguais, perante Deus, como pessoas, e distintos como masculino e feminino.

NÓS NEGAMOS que as diferenças ordenadas divinamente entre homem e mulher façam com que os mesmos sejam desiguais em dignidade e valor.

Artigo IV
NÓS AFIRMAMOS que as diferenças ordenadas divinamente entre homem e mulher refletem o projeto de criação original de Deus e foram feitas para o bem e para a prosperidade do homem.

NÓS NEGAMOS que essas diferenças são resultado da Queda ou que devem ser superadas.

Artigo V

NÓS AFIRMAMOS que as diferenças entre as estruturas reprodutivas do homem e da mulher são integrantes do projeto de Deus para a auto concepção como masculino ou feminino.

NÓS NEGAMOS que anomalias físicas ou condições psicológicas anulam a ligação designada por Deus entre o sexo biológico e a auto concepção como masculino ou feminino.

Artigo VI

NÓS AFIRMAMOS que aqueles nascidos com desordem física de desenvolvimento sexual são criados à imagem de Deus e têm dignidade e valor assim como todos os outros portadores da imagem. Eles são reconhecidos pelo Nosso Senhor Jesus em suas próprias palavras sobre “eunucos que assim nasceram do ventre da mãe”. Juntamente com outros, eles são bem-vindos como seguidores da fé de Jesus Cristo e deveriam abraçar seu sexo biológico até o ponto que o mesmo seja conhecido.

NÓS NEGAMOS que ambiguidades relacionadas ao sexo biológico de uma pessoa a torne incapaz de viver uma vida fértil em obediência alegre a Cristo.

Artigo VII
NÓS AFIRMAMOS que a auto concepção de masculino e feminino deve ser definida pelos propósitos sagrados de Deus na criação e redenção, como revelado pelas Escrituras.

NÓS NEGAMOS que adotar uma auto concepção homossexual ou transgênero consista dos propósitos sagrados de Deus na criação e redenção.

Artigo VIII

NÓS AFIRMAMOS que as pessoas que possuem atração sexual pelo mesmo sexo podem viver uma vida rica e próspera, agradando a Deus através da fé em Jesus Cristo, enquanto eles, assim como todo Cristão, caminham na pureza da vida.

NÓS NEGAMOS que a atração pelo mesmo sexo seja parte da bondade natural da criação original de Deus, ou que isso ponha alguém fora da esperança do Evangelho.

Artigo IX

NÓS AFIRMAMOS que o pecado distorce os desejos sexuais por direcioná-los para longe do pacto matrimonial e por aproximá-los da imoralidade sexual – uma distorção que inclui tanto a imoralidade heterossexual como a homossexual.

NÓS NEGAMOS que um padrão persistente de imoralidade sexual justique o comportamento sexualmente imoral.

Artigo X

NÓS AFIRMAMOS que é pecaminoso aprovar a imoralidade homossexual ou o transgênerismo e que tal aprovação constitui um desvio essencial da fé e do testemunho de Jesus Cristo.

NÓS NEGAMOS que a aprovação de imoralidade homossexual ou de transgênerismo seja questão de indiferença moral sobre a qual Cristãos fiéis deveriam concondar para descordar.

Artigo XI
NÓS AFIRMAMOS a nossa obrigação de sempre falar a verdade em amor, incluindo quando falamos com ou sobre outra pessoa como masculino ou feminino.

NÓS NEGAMOS qualquer obrigação de falar em desonra ao projeto de Deus de seus portadores da imagem como masculino e feminino.

Artigo XII

NÓS AFIRMAMOS que a graça de Deus em Cristo fornece tanto perdão misericordioso como poder transformador, e que este perdão e poder permitem ao seguidor de Jesus aniquilar desejos pecaminosos e caminhar de uma forma louvável ao Senhor.

NÓS NEGAMOS que a graça de Deus em Cristo seja insuficiente para perdoar qualquer pecado sexual e para dar poder de santidade para qualquer crente que se sinta afogado no pecado sexual.

Artigo XIII
NÓS AFIRMAMOS que a graça de Deus em Cristo permite pecadores a abandonar auto concepções de transgeneridade e através de paciência divina, de aceitar a ligação designada por Deus entre o sexo biológico e a auto concepção de alguém como masculino ou feminino.

NÓS NEGAMOS que a graça de Deus em Cristo sancione auto concepções que são estranhas à vontade de Deus revelada.

Artigo XIV

NÓS AFIRMAMOS que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores e que através da morte e ressurreição de Cristo, o perdão e a vida eterna estão disponíveis para qualquer pessoa que se arrependa de seus pecados e confie em Cristo como seu único Salvador, Senhor e tesouro supremo.

NÓS NEGAMOS que o braço do Senhor seja curto demais para salvar ou que qualquer pecador esteja além do seu alcance.

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Signatários Iniciais
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Jeff Iorg Sam Storms Richard Land
Robert A. J. Gagnon Samuel W. “Dub” Oliver Ronnie Floyd
C. J. Mahaney Jason G. Duesing Matt Carter
Chuck Kelley Burk Parsons Eric Teetsel
Alastair Roberts Kevin Ezell Ray Ortlund
O. S. Hawkins Thom S. Rainer Michael Reeves
Todd Wagner John M. Frame Randy Stinson
Mac Brunson Paul Nyquist Thomas Schreiner
H. Wayne House J. P. Moreland Bruce Ware
Michael Goeke Joel Belz Michael Horton
Jackie Hill Perry Dick Lucas Afshin Ziafat
Stephen Strang Christiana Holcomb Jimmy Draper
Owen Strachan Anthony Kidd James M. Hamilton, Jr.
Bryan Carter Chris Larson Bruce Riley Ashford
Candi Finch Curtis Woods Nathan Finn
James Robison C. Ben Mitchell Darrell Bock
William Philip David Mathis Ken Magnuson
Daniel Heimbach Hershael W. York Mary Mohler
Hunter Baker Dorothy Kelley Patterson Jim Shaddix
John N. Oswalt Jack Deere Juan R. Sanchez
Malcolm B. Yarnell, III Jonathan Leeman Mary A. Kassian

Fonte: site PALAVRA PRUDENTE

15 setembro 2017

A história documental da excomunhão de Lutero

Indice

1. A bula Unigenitus Dei Filius sobre o valor da indulgência
2. A bula Salvador Noster
3. A bula Liquet omnibus
4. A Instrutio summaria ad subcomissarios
5. A fórmula de absolvição da indulgência de Tetzel
6. Debate para o esclarecimento do valor das indulgências - as 95 teses
7. Carta Martinho Lutero a George Spalatino
8. Sermão de Lutero: sobre a indulgência e a graça
9. O decreto Cum postquam
10. Carta de Martinho Lutero à Johannes Staupitz
11. Debate e defesa do frei Martinho Lutero contra as acusações de João Eck
12. Carta de Ulrich von Hutten à Lutero
13. Bula Exsurge Domine de Leão X condenando os 41 erros de Lutero
14. Carta de Leão X a Frederico, o Sábio
15. Carta de Lutero ao papa Leão x
16. Contra a execrável bula do Anticristo
17. Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz
18. Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz
19. Discurso pronunciado na Dieta de Worms por Martinho Lutero
20. Relatos sobre Lutero na Dieta de Worms
21. Carta de Martinho Lutero a George Spalatino
22. Carta de Martinho Lutero a Alberto de Magúncia


Introdução

Aprendi que “história se faz com documentos”. Os manuais de história, bem como as biografias de Lutero, por vezes, oferecem breves citações de alguns documentos, ou de alguns fragmentos de suas declarações, e a leitura dos fatos passam apenas pelo filtro do historiador. Talvez, a sua curiosidade tenha se aguçado ao ler estas citações nos livros de história, desejando ler todo o texto, mas foi impedido, por não ter acesso às fontes originais. Essa tem sido, em muitos casos, pelo menos, a minha experiência com leitor.

O que você dispõe nesta compilação é o esforço de resolver o meu problema de curiosidade, e possivelmente, a de outros estudantes de história e teologia. Por isso produzi essa coletânea dos principais documentos, correspondências e livros que envolveram a excomunhão de Martinho Lutero. Espero que ela seja útil para o aprendizado e que possibilite, por si, discernir os fatos, ponderando no julgamento que condenou o pai da Reforma.

Este texto é uma mera compilação. É o resultado de anos acumulados de leitura e aulas que oportunizaram-me colecionar estes documentos. Alguns estão disponíveis em português, mas em obras menos conhecidas, outros textos tive que traduzi-los. Os textos estão em ordem cronológica a fim de facilitar o entendimento dos fatos que sucederam no processo de excomunhão. Adicionei algumas cartas que revelam as intenções e sentimentos dos envolvidos. Nota-se que os primeiros documentos são decisões dos concílios da Igreja cristã acerca das indulgências. É importante entender o contexto teológico que antecedeu, e criou o contexto histórico da discussão em que Lutero se envolveria, e que culminaria em sua excomunhão.

Esta coletânea ainda não está completa. Há outros documentos que procuro, e estão em minha lista de desejos, e, se Deus quiser, pretendo terminar a minha coleção com o máximo de documentos, dos mais diversos, a fim de apresentar ao estudante a oportunidade duma leitura ad fontes.
Espero que o texto seja útil aos seus estudos, aulas ou palestras. A minha oração é que o Senhor Deus da Igreja, continue reformando-a de acordo com a sua Escritura Sagrada.

[ACESSE O TEXTO COMPLETO AQUI]

11 setembro 2017

A forma de questionar e examinar aos pequenos antes de serem admitidos na Ceia do Senhor

Escrito por João Calvino

Pergunta o mestre: Vocês são cristãos?
Responde o discípulo: Sim somos, pela misericórdia de Deus.

Mestre: Vocês nasceram cristãos, ou se tornaram após o nascimento?
Discípulo: Todos nascemos pecadores desde o ventre da mãe, condenados, inimigos de Deus e filhos da ira por natureza. Mas, depois recebemos o benefício de sermos cristãos por amor de Jesus Cristo.

Mestre: Por que motivo nascemos assim?
Discípulo: Porque todos pecamos em Adão, por ele ter se tornado pecador, nascemos pecadores corrompidos e sentenciados a morte como traidores.

Mestre: Que sinal vocês têm de que são cristãos?
Discípulo: Tenho a fé do evangelho e o batismo.

Mestre: Se têm a fé por sinal de são cristãos, digam-me agora em que creem?
Discípulo: Cremos em Deus Pai, e em Jesus Cristo seu Filho, e no Espírito Santo, em quem tenho toda confiança de minha salvação, e a quem sempre recorremos em todas as nossas necessidades.

Mestre: O Pai, o Filho e o Espírito Santo são mais de um Deus?
Discípulo: Não. Porque não há, nem pode existir além de um, que é o Criador e Preservador de tudo.

Mestre: Que confissão de fé vocês fazem?
Discípulo: A que é desde sempre comum à Igreja de Jesus Cristo, que se chama o Símbolo dos Apóstolos, que começa: Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra ...

Mestre: Em quantas partes se divide?
Discípulo: Em quatro.

Mestre: Diga o resumo do que contém na primeira parte.
Discípulo: Que Deus, que é Pai de Jesus Cristo, nosso Senhor, é também pai de todos nós por amor dele; e é o princípio e causa de todas as coisas, as quais governa de tal maneira que nada ocorre sem a sua ordenação e vontade, e ele é o provedor de todas as coisas, o que mantém e sustenta com sua bondade, sabedoria e poder.

Mestre: Agora diga o que contém na segunda.
Discípulo: Que Jesus Cristo, sendo Deus igual ao Pai, condescendeu ao mundo, e se fez homem no ventre da santa e virgem Maria, por obra do Espírito Santo, e vindo cumprir tudo o que se requeria para nossa salvação; e que do céu, aonde subiu após ressuscitado, e onde está assentado à destra do Pai, no último dia virá com grande glória e majestade para julgar vivos e mortos.

Mestre: Passe para as duas últimas.
Discípulo: A suma da terceira é que confessamos crer no Espírito Santo, Deus verdadeiro, igual com o Pai e o Filho, por cuja virtude e potência as promessas feitas e cumpridas em Jesus Cristo são impressas e seladas em nossos corações; o qual nos santifica e conserva pela fé, e nos faz seu templo. A última é que há uma igreja santa e universal, congregada e iluminada pelo Espírito Santo, livre e purificada de seus pecados pelo sangue de Jesus Cristo, o qual é seu cabeça, de onde recebe espírito e vida, e que Deus lhe tem equipada a cumprida possessão da vida eterna. Este é o resumo e substância do que creio.

Mestre: Está bem declarado, passemos adiante. Devemos servir a Deus segundo os seus mandamentos, ou segundo as tradições dos homens?
Discípulo: Devemos servi-lo segundo os seus mandamentos, e não segundo as tradições dos homens.

Mestre: Por que não temos de servi-lo segundo as tradições dos homens?
Discípulo: Porque todos os serviços que por elas se fazem, os têm proibidos como sendo vãos e abomináveis. E castiga com cegueira de entendimento e outros muitos males aos homens por eles.

Mestre: Onde encontraremos os mandamentos de Deus pelos quais requer servi-lo?
Discípulo: Encontraremos em muitos lugares da santa Escritura, e singularmente no capítulo 20 de Êxodo. Deus os deu a seu povo, pela mão de Moisés, dizendo: “Ouve Israel, Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão: não terás outros deuses diante de mim”, etc. E os demais da primeira e segunda tábua.

Mestre: Vocês têm força para cumpri-los como Deus ordena?
Discípulo: Não, de modo algum; porque toda a nossa inclinação é fraqueza, ignorância e corrupção.

Mestre: Então, quem é que os cumpre em vocês?
Discípulo: O Espírito Santo.

Mestre: E depois de Deus ter concedido o seu Espírito, vocês são capazes de cumpri-los perfeitamente?
Discípulo: Muito menos.

Mestre: Deus na lei amaldiçoa e rejeita a todos os que não cumprem perfeitamente os seus mandamentos.
Discípulo: Assim é verdade.

Mestre: Então, por qual meio vocês serão salvos e livres da maldição de Deus?
Discípulo: Seremos salvos somente pela morte e sofrimento de nosso Senhor Jesus Cristo.

Mestre: Como assim?
Discípulo: Porque por sua morte nos restituiu a vida, e nos reconciliou com o eterno Pai. Segundo disse são Paulo, que foi morto pelos nossos pecados, e ressuscitou para nossa justificação.

Mestre: De que maneira vocês serão participantes do benefício de sua morte e ressurreição para alcançar a salvação?
Discípulo: Recebendo-o por verdadeira fé e confiança na misericórdia de Deus.

Mestre: Essa fé com que se recebe o benefício de Cristo, encontra-se sem a obediência de Deus, e sem caridade para com o próximo?
Discípulo: Não, de modo algum. Porque ela é a raiz de onde procedem. E assim, quem verdadeiramente crê, alegremente obedece a Deus e ama ao seu próximo, e pelas boas obras que lhe faz, declara tanto um como o outro.

Mestre: De que maneira a fé, a obediência e o amor estão juntas no cristão?
Discípulo: Na verdade elas sempre andam tão unidas que onde qualquer uma delas se acha, necessariamente se encontram todas as outras.

Mestre: Satisfeito, passemos à oração, e digam-me primeiro. Em nome de quem vocês invocam a Deus?
Discípulo: Em nome de Jesus Cristo, que é o nosso perpétuo intercessor e advogado diante de sua Majestade.

Mestre: Há outro advogado, ou temos necessidade de outro além deste diante do Pai?
Discípulo: Não há outro, nem temos necessidade de outro. Porque não há além de um Redentor, que é Jesus Cristo, assim não há, nem pode haver mais de um advogado e mediador entre Deus e os homens, que é ele mesmo.

Mestre: Será ouvido se fizer uma oração a Deus por meio de outro que não seja Jesus Cristo?
Discípulo: Não. Pelo contrário, peca em orar assim. Porque não tem mandamento, nem promessa de Deus para isto; e tudo o que não procede da fé, é pecado.

Mestre: Logo os que invocam a Deus por meio dos santos que passaram por este mundo, são deste modo ofensores de sua Majestade?
Discípulo: É verdade. Porque não tem Deus expressamente proibido e mostram os que assim o fazem, que não têm Deus por Pai, nem conhecem a Jesus Cristo.

Mestre: Vejamos qual é a forma que se tem que invocá-lo?
Discípulo: A que ensinou Jesus Cristo aos seus apóstolos, para a sua Igreja, de onde se contém tudo o que temos que pedir a Deus para passar desta vida, e vir depois a gozar da que é eterna. E começa desta maneira: Pai nosso, que está no céu, etc.

Mestre: É permitido usar de outra forma de oração que não seja esta?
Discípulo: É lícito, desde que se refira a esta todas as orações que fizermos.

Mestre: Por que?
Discípulo: Porque nesta oração se abrange tudo o que Deus requer que lhe peçamos, e nos é dada por regra de bem orar.

Mestre: Quantos sacramentos há na Igreja cristã?
Discípulo: Somente dois.

Mestre: Quais são?
Discípulo: O batismo e a Santa Ceia do Senhor.

Mestre: Qual é a significação do batismo?
Discípulo: Tem duas partes. Porque nele nos representa o Senhor, de um lado, e a remissão dos nossos pecados, e por outro, a nossa regeneração ou renovação espiritual.

Mestre: E o que nos significa a Santa Ceia?
Discípulo: Significamos que pela comunhão do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, são mantidas nossas almas na esperança da vida eterna.

Mestre: O que nos representa o pão e o vinho que nos são dados na Santa Ceia?
Discípulo: Representam-nos que o corpo e sangue de Jesus Cristo têm tal virtude para manter nossas almas, do mesmo modo que o pão e o vinho para sustentar os nossos corpos.

Mestre: A Ceia foi instituída para que novamente se faça nela o sacrifício a Deus do corpo de seu Filho?
Discípulo: Não, de maneira alguma. Porque somente a Jesus Cristo, por ser o eterno sacerdote, pertence o ofício de sacrificar, o qual na cruz ofereceu seu corpo em perpétuo sacrifício, que bastou para a nossa salvação. Portanto, não resta senão que gozemos dele.

Mestre: Então, para que foi estabelecida a Ceia, se não temos que sacrificar?
Discípulo: Foi-nos deixada por um perpétuo memorial da morte do Senhor. E assim, pelo uso legítimo dela somos induzidos a considerar tudo o que ele fez para a nossa salvação, e somos mantidos espiritualmente, e confirmados na fé de tudo isto.

Mestre: Todo cristão deve receber o sinal do pão e do vinho, ou basta usar apenas de um deles.
Discípulo: É necessário a todo cristão receber ambas os elementos. Porque assim o Senhor Jesus Cristo deixou ordenado e estabelecido. E quem o fizer contra isto, incorre em gravíssimo pecado.

Mestre: Vocês entendem que o corpo de Jesus Cristo esteja encerrado no pão, e o seu sangue no vinho?
Discípulo: Não.

Mestre: Então, onde devemos buscar a Jesus Cristo a fim de satisfazermos nele?
Discípulo: No céu, na glória do Pai.

Mestre: Qual é o meio para ao céu onde Jesus Cristo está?
Discípulo: É a verdadeira fé do evangelho. Porque por ela Deus nos atraí para si, e vamos a ele.

Mestre: Então, é necessário exercer a verdadeira fé, antes que possamos bem usar deste santo sacramento?
Discípulo: É verdade. Porque foi instituída para confortar e esforçar os que estão vivos em Deus, e nenhum está se não a tiver.

Mestre: O que recebem os que carecendo desta fé se achegam da mesa do Senhor para comungar?
Discípulo: Recebendo o sacramento do corpo e do sangue do Senhor, recebem juízo e condenação contra si, como disse são Paulo.

Mestre: Então o que faremos para que recebendo o sacramento nos seja saudável?
Discípulo: Devemos nos examinar como ordena o apóstolo.

Mestre: Como se fará esta prova e exame?
Discípulo: Que observe cada um antes da comunhão, se tem verdadeiro arrependimento de seus pecados, e firme propósito de viver conforme a lei de Deus; se está unido com Jesus Cristo pela fé, e com seus próximos pelo amor.

Mestre: E como podemos ter esta fé para que estejamos dispostos para este celestial convite?
Discípulo: Obtemos pelo Espírito Santo que mora em nossos corações e nos faz certos das promessas de Deus, que nos são feitas no evangelho.

Mestre: Que sinais teremos para conhecer que as recebemos?
Discípulo: Temos quatro. A primeira, amar a Deus e estar afeiçoados pela sua lei. A segunda, ter a consciência pacífica e certa de que são perdoados os nossos pecados pelo sangue de Jesus Cristo. A terceira, usar da caridade com os próximos em geral, e especialmente com os fiéis e membros de Cristo. A última, mortificar continuamente todas as concupiscências e desejos da carne, e ter grande ódio ao pecado.

Mestre: Onde houver estes frutos, existirá a fé verdadeira e eficaz?
Discípulo: Sim, porque eles são conhecidos.

Mestre: Agora sigam com a graça de Deus, e esforcem-se sempre com diligência de frutificar desta maneira, e roguem ao Senhor que faça a todos, que seja glorificado por meio de todos, e que sejamos verdadeiros imitadores de Jesus Cristo, o nosso único Redentor e Senhor.

Fim do catecismo


Traduzido de B. Foster Stockwell, "Catecismo de la Iglesia de Ginebra [1542]" in: Catecismos de la Iglesia Reformada (Buenos Aires, Editorial "La Aurora", 1962), pp. 116-124.

19 agosto 2017

Zwingli, Sola Scriptura contra os Anabatistas em 1523–24

by R. Scott Clark

Em sua segunda disputa com Balthasar Hubmair, em 1523, Huldrych Zwingli articulou bem o princípio formal da Reforma: “Pois, em todas as controvérsias relativas à fé e à religião, somente a Escritura divina deve ser a nossa medida e a nossa regra antes que a tradição oral”. Zwingli articulou este princípio no contexto de um debate com um dos principais anabatistas de primeira geração. Hubmair sugeriu que quem argumenta que Zwingli não se tornou um anabaptista (e que ele até se esforçou para ser) porque o reformador suíço realmente não acreditava no princípio da Sola Scriptura (ou porque ele temia as autoridades civis) mal interpretaram Zwingli. Foi por sua leitura das Escrituras que Zwingli rejeitou a escatologia anabatista e sua compreensão da história da redenção. Assim como Barnabé, Ireneu e Justino Mártir rejeitaram a dicotomia gnóstica e marcioníca entre Moisés e Cristo em favor de uma aliança unificada de salvação, a qual o Reformado mais tarde chamaria de aliança da graça, assim também Zwingli, Oecolampadius e Bullinger argumentariam que o Antigo e o Novo Testamento são fundamentalmente unificados por uma única aliança de graça. Eles reconheceram a diversidade na administração da aliança da graça sob Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi e os Profetas. Zwingli e outros dos primeiros teólogos Reformados reconheceram que havia uma qualidade temporária para a administração mosaica da aliança da graça que a distinguia das outras administrações. Eles reconheceram uma forte continuidade entre a administração abraâmica da aliança da graça e a nova aliança.

Em sua Exposição dos Artigos, escrito em 1524, ele explicou a relação entre a aliança e o batismo nesses pontos:

1. O batismo foi inscrito como um "juramento de fidelidade" (sacramentum) na igreja visível, uma iniciação de entrada ao povo de Deus.
2. Se existe um só povo de Deus, com uma só fé, num único Salvador, segue-se que os sinais e selos dessa salvação, Salvador e fé, não mudaram radicalmente.
3. Assim, ele apelou para Cl 2: 11-12, onde Paulo ligou a circuncisão e o batismo, como prova de que os pais cristãos também devem administrar o sinal da aliança aos seus filhos.
4. Ele concordou com Lutero que os Sacramentos fortalecem a fé, mas ele esclareceu para dizer que eles não a produzem. Esta é a obra do Espírito através da Palavra.
5. Contra os anabatistas (ou seja, Schwenkfelders), ele argumentou que eles adicionaram as Escrituras negando o paedobaptismo. O NT se silencia, portanto, a ordem de administrar o sinal da aliança continua a sua aplicação hoje.
6. Ao proibi-lo, eles estavam adicionando as Escrituras e fazendo exatamente o que Jesus disse para não fazer: proibir as crianças de se achegarem a ele!
7. Se negarmos que as crianças sejam batizadas, devemos negar que as mulheres venham à mesa da comunhão, porque não há evidências positivas de que no NT houve tal permissão.
8. Se o batismo de João é substancialmente o mesmo que o de Cristo, então não há necessidade categórica de ser discipulado antes do batismo, já que os discípulos de João nem ouviram falar de Cristo antes de serem batizados. O batismo de João era prospectivo e a retrospectiva de Cristo.
9. Certamente as crianças foram batizadas no AT. Todos os israelitas, crianças e adultos, foram batizados com Moisés no Mar Vermelho (1 Co 10).
10. Os filhos dos crentes nascem com o pecado original, mas não a culpa original e, portanto, são elegíveis para o batismo.
11. Como os filhos dos crentes do NT podem ser piores do que os filhos dos judeus que receberam o sinal da aliança, se esta é uma aliança melhor?
12. O sinal de iniciação, em ambas as alianças, sempre implicou numa promessa de renová-lo com os filhos, por isso ele é o sinal.

O Reformado não continuou, necessariamente, todas as linhas de argumentos que fez em 1524 (por exemplo, a sua distinção entre o pecado original e a culpa original), mas a continuidade entre a primeira compreensão reformada da aliança da graça (e do batismo infantil) e mais tarde, em expressões mais maduras (por exemplo, o tratado de Bullinger sobre a aliança da graça), são as mesmas de Calvino, em 1540-60, e dos teólogos de Heidelberg nas décadas de 1560 a 70) são inconfundíveis.

Na mente de Zwingli e na compreensão dos escritores reformados posteriores, a unidade fundamental da aliança da graça entre Abraão e a nova aliança não era uma mera convenção, isto é, não era arbitrária. Viram-na no texto da Escritura. Eles foram conduzidos a ela pela própria Escritura. A teologia da aliança era um relato da Escritura. Foi uma tentativa de explicar pontos decisivos na história da redenção, onde a aliança desempenha um papel fundamental, seja no capítulo 6 de Gênesis ou nos capítulos 12, 15 e 17 e Jeremias 33 ou na instituição da Ceia do Senhor (por exemplo, Lucas 22) ou no relato de Paulo sobre a história da redenção em 2 Coríntios 3, Gl 3-4, ou nos capítulos 7-10 de Hebreus. Os primeiros reformados não eram como às vezes se alega, que apenas procuravam uma justificativa ex post facto da prática medieval, pelo contrário, buscavam o relato na própria Escritura. Na mente de Zwingli o batismo infantil era o produto da Sola Scriptura.

Extraído de heidelblog.net acessado em 19/08/2017, às 18h13.
Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

23 abril 2017

A ideia de liberdade em Agostinho [uma breve nota]

Agostinho ensinava os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], Richard A. Muller explica que “a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular”. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: “antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar”. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: “uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar”. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: “a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem”. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: “uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado”.

Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse).

Veja Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms (Baker Book), p. 176.