20 agosto 2014

O presbítero deve ser irrepreensível

O presbítero é um episcopos, isto é, um supervisor do rebanho de Deus. Ele tem a responsabilidade de supervisionar interna e externamente a comunidade que está sob os seus cuidados. A sua supervisão tem uma natureza interna porque ele precisa olhar entre as ovelhas como elas estão, e como se comportam, e se estão saudáveis espiritual, moral e doutrinariamente. Ele deve se informar se as famílias sob o seu pastoreio estão vivendo de acordo com a Palavra de Deus. Ao mesmo tempo, ele tem o dever de supervisionar externamente contra os lobos, os falsos mestres e alertar o rebanho contra todo falso profeta, bem como os ventos de doutrina que se aproximam do seu redil. Para exercer o seu chamado, o presbítero necessita de autoridade, senão, as ovelhas sob o seu cuidado não lhe darão ouvidos e correrão o risco de dispersar ou de serem dissipadas pelo perigo externo. Por não terem uma referência saudável, elas tenderão ao mundanismo.

Esta sublime tarefa exige que o supervisor seja de caráter irrepreensível, ele precisa ser livre de acusações dos seus adversários. A palavra no grego é anepílémptos que significa não exposto ao ataque, ou seja, ele não pode ser merecedor de censura. Samuel Miller alerta que “talvez não exista na sociedade humana situação que reclame mais imperiosamente por delicadeza, precaução, reserva, e a mais vigilante discrição, do que a de um governante eclesiástico.”[1] O presbítero não pode armar os seus inimigos com argumentos que venham usar contra ele. Como supervisor, ele deve primeiramente ser vigilante com os seus impulsos pecaminosos, para que não seja reprovado, no que precisa ser referência.

Isto não significa que ele seja perfeito, ou infalível, ou que não peque mais. Ele ainda luta contra a sua velha inclinação pecaminosa, e é consciente de suas limitações. Mas o que está em evidência em sua vida é o seu compromisso com Cristo, a sua maturidade, uma vida de transformação, o seu amor pelo Redentor está em relevo. Ele é padrão para os jovens e novos convertidos, de modo que todo o rebanho o tenha como referência ética e firmeza doutrinária. A sua vida não pode de modo algum ser caracterizada pela necessidade de contínuas repreensões, de modo que todos percebam que ele não pode ser exemplo, nem representante do rebanho de Cristo. Se nele não está em evidência as virtudes de Cristo, então, ele não pode conduzir, nem supervisionar as ovelhas do Senhor, pois o seu comportamento é vazio de autoridade para exortar, confrontar e liderar. Em outras palavras, ele simplesmente não tem autoridade.

NOTA:
Samuel Miller, O Presbítero Regente - Natureza, Deveres e Qualificações (São Paulo, Editora Os Puritanos, 2a. ed., 2011), p. 44.

09 junho 2014

Discipulado intelectual? Pensamento fiel para uma vida fiel

Por Albert Mohler


A narrativa bíblica serve como referência para os princípios cognitivos que permitem a formação de uma cosmovisão autenticamente cristã. Muitos cristãos se apressam em desenvolver o que eles chamam uma "cosmovisão cristã" pela organização das verdades, doutrinas e convicções cristãs separadas com a finalidade de criar fórmulas para o pensamento cristão. Sem dúvida, esta é uma melhor ênfase que se encontra entre tantos crentes que têm pouco interesse pelo pensamento cristão, mas não é suficiente.

Um modelo sólido e rico do pensamento cristão — a qualidade do pensamento que culmina numa cosmovisão centrada em Deus — requer que vejamos toda a verdade como interconectada. Consequentemente, a totalidade sistemática da verdade pode-se remontar ao fato de que o próprio Deus é o autor de toda a verdade. O Cristianismo não é apenas um conjunto de doutrinas, no sentido de que um mecânico opera com um conjunto de ferramentas. Pelo contrário, o Cristianismo é uma cosmovisão completa e o modo de vida que nasce da reflexão cristã a partir da Bíblia e do plano planejado por Deus, conforme revelado na unidade das Escrituras.

Uma cosmovisão centrada em Deus atrai todos os temas, perguntas e preocupações culturais, para uma submissão a tudo o que a Bíblia revela, e caracteriza todo entendimento dentro do objetivo final de permitir a maior glória de Deus. Esta tarefa de levar cativo todo o pensamento a Cristo requer mais do que o pensamento cristão circunstancial e deve-se entender como a tarefa da igreja, e não somente a preocupação dos crentes individuais. A recuperação da mente cristã e o desenvolvimento de uma cosmovisão cristã integral requerem a reflexão teológica mais profunda, a aplicação mais consagrada da erudição, o compromisso mais sensível para compaixão e o valor de enfrentar todas as perguntas sem temor.

O Cristianismo trás ao mundo um entendimento distintivo do tempo, história e o significado da vida. A cosmovisão cristã abrange uma compreensão do universo e tudo o que nele contém, e nisto percebemos muito além do mero Materialismo e nos liberta da prisão intelectual do Naturalismo. Os cristãos entendem que o mundo — inclusive o mundo material, se dignifica com o mesmo fato de que Deus o criou. Ao mesmo tempo, entendemos que devemos ser administradores desta criação, e não devemos adorar as coisas que Deus fez. Entendemos que cada ser humano é feito à imagem de Deus e que Deus é o Senhor da vida em todas as etapas do desenvolvimento humano. Honramos a santidade da vida humana, porque adoramos ao Criador. Da Bíblia, extraímos a informação fundamental de que Deus se deleita na diversidade étnica e racial de suas criaturas humanas, e assim devemos fazê-lo.

A cosmovisão cristã envolve um entendimento distintivo da beleza, a verdade e a bondade, entendendo-se por tais os transcendentais que, na análise final, são uma e a mesma. Portanto, a cosmovisão cristã não permite a fragmentação que elimina o belo do verdadeiro, ou do bom. Os cristãos consideram a administração dos dons culturais — que vão da música e a arte visual até o drama e à arquitetura — como uma questão da responsabilidade espiritual.

A cosmovisão cristã proporciona os recursos autorizados para a compreensão de nossa necessidade da lei e nosso respeito pela ordem. Informados pela Bíblia, os cristãos entendem que Deus inverteu o governo com a responsabilidade urgente e importante. Ao mesmo tempo, os cristãos chegam a compreender que a idolatria e o auto-engrandecimento são tentações que vêm a cada esfera. A partir dos ensinos abundantes da Bíblia referentes ao dinheiro, à cobiça, à dignidade do trabalho, e a importância do trabalho, os cristãos têm muito que abranger a uma compreensão adequada da economia. Aqueles que atuam a partir de uma cosmovisão intencionalmente bíblica não podem reduzir os seres humanos a simples unidades econômicas, senão há de se entender que nossa vida econômica reflete o fato de que estamos feitos à imagem de Deus e, portanto, estão investidos da responsabilidade de serem mordomos de tudo o que o Criador nos concedeu.

A fidelidade cristã requer um profundo compromisso com a séria reflexão moral sobre assuntos da guerra e da paz, a justiça e a equidade e o bem funcionamento de um sistema de leis. Nosso esforço intencional por desenvolver uma cosmovisão cristã nos obriga a voltarmos aos primeiros princípios uma e outra vez, num esforço constante e vigilante para assegurar-se de que os padrões de nossos pensamentos são consistentes com a Bíblia e sua narrativa.

No contexto do conflito cultural, o desenvolvimento de uma autêntica cosmovisão cristã deve permitir à Igreja do Senhor Jesus Cristo manter um equilíbrio responsável e valente em qualquer cultura, em qualquer período de tempo. A administração desta responsabilidade não é somente um desafio intelectual, senão que determina em grande medida, se os cristãos vivem e atuam ou não, ante o mundo de uma maneira que glorifique a Deus e promova a credibilidade do evangelho de Jesus Cristo. O fracasso nesta tarefa representa um abandono da responsabilidade cristã que desonra a Cristo, debilita a Igreja, e compromete o testemunho cristão.

Uma falha no pensamento cristão é um fracasso do discipulado, porque somos chamados a amar a Deus com nossas mentes. Não podemos seguir fielmente a Cristo sem antes pensar como cristãos. Por outra parte, os crentes não devem ser pensadores alienados que isolados levam esta responsabilidade. Somos chamados para sermos fiéis juntos à medida que aprendemos o discipulado intelectual dentro da comunidade de crentes, a Igreja.

Pela graça de Deus, nos permite amar a Deus com nossas mentes para que lhe sirvamos com nossas vidas. A fidelidade cristã requer o desenvolvimento consciente duma cosmovisão que começa e termina com Deus em seu centro. Somente somos capazes de pensar como cristãos porque pertencemos a Cristo, e a cosmovisão cristã é, enfim, nada mais do que tratar de pensar como Cristo requer que pensemos, com a finalidade de ser o que Cristo nos chama para ser.


Para a leitura de contexto, consulte:
R. Albert Mohler, Jr., “The Glory of God and the Life of the Mind,” Quinta-feira, 12 de Novembro, 2010.
R. Albert Mohler, Jr., “The Knowledge of the Self-Revealing God: Starting Point for the Christian Worldview,” Quinta-feira, 3 de Dezembro, 2010.
R. Albert Mohler, Jr., “The Christian Worldview as Master Narrative: Creation,” Quarta-feira, 15 de Dezembro, 2010.
R. Albert Mohler, Jr., “The Christian Worldview as Master Narrative: Sin and its Consequences,” Quinta-feira, 7 de Janeiro, 2011.
R. Albert Mohler, Jr., “The Christian Worldview as Master Narrative: Redemption Accomplished,” Segunda-feira, 10 de Janeiro, 2011.
R. Albert Mohler, Jr., “The Christian Worldview as Master Narrative: The End that Is a Beginning,” Quarta-feira, 12 de Janeiro, 2011.


Traduzido por Ewerton B. Tokashiki
Porto Velho, 9 de Junho de 2014.

Extraído de http://elevangeliosegunjesucristo.blogspot.com.br/2014/01/discipulado-intelectual-pensamiento.html acessado em 29 de Janeiro de 2014.

06 junho 2014

Os Três Pontos da Graça Comum conforme a Christian Reformed Church

A resolução da Christian Reformed Church acerca da Graça Comum


Numa reunião Sinodal da Christian Reformed Church (CRC), que começou em 18 de junho de 1924, em Kalamazoo, no Michigan, após uma longa controvérsia, a CRC adotou o que veio a ser conhecida como os "Três Pontos da Graça Comum." Porque alguns ministros dentro da CRC se recusaram a assinar os "Três Pontos", eles (com a maioria de seus consistórios) foram suspensos ou deposto dos seus cargos. Este foi o início das Protestant Reformed Church na América. Estes ministros, e outros depois deles, escreveram respostas à decisão que foi tomada. Naquela época, e desde então, a Protestant Reformed Church tem alertado que estes "Três Pontos" eram não somente contrário à Escritura e as Confissões Reformadas, mas também serviu como uma ponte para o mundo e daria a desculpa para introduzir o mundanismo na igreja.

Citamos literalmente os três pontos:

I. O Primeiro Ponto:
"Em relação ao primeiro ponto, que diz respeito à atitude favorável de Deus para com a humanidade em geral e não apenas para os eleitos, o Sínodo declara que é possível afirmar de acordo com a Escritura e as Confissões que, além da graça salvadora de Deus apresentado apenas àqueles que são eleitos para a vida eterna, há também certo favor ou graça de Deus que Ele mostra às Suas criaturas em geral. Isto é evidente a partir das passagens bíblicas citadas e dos Cânones de Dordrecht II: 5 e III- IV: 8,9, que tratam da oferta geral do Evangelho, ao mesmo tempo que também aparece as citações feitas a partir de escritores reformados do período mais florescente da Teologia Reformada que nossos escritores reformados do passado favoreceram este ponto de vista. (Prova bíblica: Salmo 145:9; Mt 5:44, 45; Lc 6:35-36; At 14:16-17; 1 Tm 4:10; Rm 2:4 ; Ezequiel 33:11 ; Ezequiel 18:23)”

II. O Segundo Ponto:
"Em relação ao segundo ponto no que diz respeito à restrição do pecado na vida do homem individual e na comunidade, o Sínodo declara que há tal restrição do pecado, segundo as Escrituras e a Confissão. Isto é evidente a partir das citações das Escrituras e da Confissão dos Países Baixos, Art. 13 e 36, que ensinam que Deus pelas operações gerais do Seu Espírito, sem renovar o coração do homem, restringe os efeitos do pecado, de modo que a vida humana na sociedade continua a ser possível; e quanto a isto também é evidente a partir das citações de escritores reformados do período mais florescente da Teologia Reformada, que desde os tempos antigos nossos pais reformados eram da mesma opinião. (Prova bíblica: Sl 81:11-12 ; Gn 6:3; At 7:42; Rm 1:24; Rm 1:26, 28; 2 Ts 2:6-7).”

III. O Terceiro Ponto:
"Em relação ao terceiro ponto, no que diz respeito à questão da justiça civil realizada pelo não-regenerado, o Sínodo declara que de acordo com a Escritura e as Confissões o não-regenerado, embora seja incapaz de fazer qualquer coisa dita boa, pode fazer o bem civil. Isto é evidente das citações das Escrituras e dos Cânones de Dordrecht, III- IV: 4, e da Confissão dos Países Baixos, Art. 36, que ensinam que Deus, sem renovar o coração, ainda assim influencia o homem de modo que ele seja capaz de realizar o bem civil; ao mesmo tempo que isto é evidente das citações de escritores reformados do período mais florescente da Teologia Reformada que nossos pais reformados desde os tempos antigos eram da mesma opinião. (Prova bíblica: 2 Rs 10:29-30; 2 Rs 12:2; 14:3 ; Lc 6:33; Rm 2:14).”


Extraído http://www.prca.org/resources/categories/articles/item/291-the-three-points-of-common-grace de 8 de Março de 2014.
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki.

Para acesso aos documentos do sínodo da Christian Reformed Church - ACESSE AQUI

18 maio 2014

A incoerência de cristãos com a atual situação política [vídeo]

Estranho como numerosos cristãos, e até mesmo reformados se posicionam partidários da atual política de Esquerda no Brasil. Aparentemente ignoram a incompatibilidade da fé cristã e o Marxismo. Entretanto, percebo que este não é o único problema de incoerência ideológica, há também uma conivência com a política pública de tornar o socialismo o sistema de governo de nosso país. Estes mesmos cristãos, calam-se diante das denúncias de corrupção, e se contentam com as absolvições do STJ, e ainda se melindram diante de toda evidente crítica, por mais verdadeira que seja.

Este breve vídeo é uma breve reflexão e advertência a esta incoerência ética e ideológica.

Para assistir [clique aqui].

22 abril 2014

A incompatibilidade da fé cristã e do Marxismo [vídeo]

Tenho me preocupado vendo tantos cristãos comprometendo-se com o Marxismo, consciente ou inconscientemente, entendendo as premissas desta ideologia, ou apenas abracando-o pelos mais diferentes motivos. Por isso, resolvi fazer um vídeo explicando a incompatibilidade da fé cristã e do Marxismo. É algo amador, com uma filmagem simples, mas o foco é a argumentação. Apresento 5 pontos de tensão que precisam ser avaliados nesta rival relação entre o Cristianismo e o Marxismo:
1. Ambos propõe uma cosmovisão explicando toda a realidade.
2. Ambos têm uma proposta acerca de Deus.
3. Ambos apresentam um entendimento do que é o homem e o problema do mal moral.
4. Ambos possuem uma clara perspectiva acerca da religião.
5. Ambos afirmam algo essencial acerca da moralidade.

O meu intuito é denunciar esta confusão teológica e ideológica que está causando tanto prejuízo. Se formos coerentes nas premissas, a prática será uma consequência!

Para assistir o vídeo no YOUTUBE [acesse aqui].

17 abril 2014

Karl Marx contra a moralidade

Escrito por Allen Wood

1. Introdução

Os marxistas expressam frequentemente uma atitude depreciativa para com a moralidade, que (segundo dizem) não é mais do que uma forma de ilusão, uma falsa consciência ou ideologia. Mas, outros (tanto os que se consideram marxistas, como quem não) frequentemente consideram difícil de compreender esta atitude. Os marxistas condenam o capitalismo por explorar a classe trabalhadora e condenar à maioria das pessoas a levar uma vida alienada e insatisfeita. Quais razões podem oferecer para isto, e como podem esperar que outros façam o mesmo, se abandonam todo apelo à moralidade? Todavia, a rejeição marxista da moralidade começa com o próprio Marx. E esta é – segundo vou argumentar – uma concepção defensável, uma consequência natural, como a respeito dela disse Marx, da concepção materialista da história. Ainda que não aceitemos as ideias restantes de Marx, o seu ataque à moralidade estabelece questões importantes relativas à maneira em que devemos concebê-la.


2. O antimoralismo de Marx

Marx geralmente permanece em silêncio acerca do tipo de questões que interessam aos moralistas e aos filósofos éticos. Mas deve-se observar que claramente este silêncio não se deve a um complacente descuido. A sua atitude é de hostilidade aberta à teorização moral, aos valores morais e inclusive contra a própria moralidade. Contra Pierre Proudhon, Karl Heinzen e os “socialistas autênticos” alemães, Marx utiliza regularmente os termos “moralidade” e “crítica moralizante” como epítetos insultuosos. Condena amargamente a exigência de “salários justos” e “distribuição justa” do Programa de Gotha, afirmando que estas expressões “confundem a perspectiva realista da classe trabalhadora” com a “verborragia desatualizada” e o “lixo ideológico” que seu enfoque científico se torna obsoleto (MEW 19:22, SW 325). Quando outros persuadem a Marx a que inclua uma retórica moral suave nas regras para a Primeira Internacional, ele sente que deve desculpar-se com Engels por isto: “vi-me obrigado a introduzir duas expressões sobre “dever” e “o correto” ... ou seja, sobre “a verdade, a moralidade e a justiça”, mas, estão situadas de tal forma que não podem causar nenhum dano” (CW 42, p. 18).

Normalmente Marx descreve a moralidade, junto à religião e ao direito, como formas de ideologia taxando-a como “outros tantos preconceitos burgueses pelos quais se escondem outros tantos interesses ideológicos” (MEW 4, p. 472; CW 6, p. 494-495, cf. MEW 3, p. 26; CW 5, p. 36). Porém, não somente condena as ideias burguesas sobre a moralidade. Seu alvo é a própria moralidade, toda moralidade. A ideologia alemã afirma que a concepção materialista da história, ao mostrar a vinculação entre ideologia moral e interesses materiais de classe “quebrou o suporte de toda a moralidade”, independentemente de seu conteúdo ou filiação de classe (MEW 3, p. 404; CW 5, p. 419). Quando um crítico imaginário critica que “o comunismo anula toda a moralidade e religião, em vez de formá-las de novo”, o Manifesto Comunista responde não negando a verdade da acusação, mas por sua vez observando como a revolução comunista significará uma ruptura radical com todas as relações tradicionais de propriedade, também significará o corte mais radical ainda com todas as ideias tradicionais (MEW 4, p. 480-481; CW 6, p. 504). Evidentemente Marx pensou do mesmo modo que a abolição da propriedade burguesa será uma tarefa da revolução comunista, outra será a “abolição de toda moralidade”. Marx inclusive chega a unir-se ao mal moral contra o bem moral. Insiste que na história “é sempre o lado mal o que finalmente triunfa sobre o bem. Pois, o lado mal é o que indica o movimento da vida, o que faz a história levando a luta à sua maturidade” (MEW 4, p. 140; CW 6, p. 174).


[...] para leitura do texto completo [14 páginas] - acesse aqui!

08 abril 2014

Marxismo e Cristianismo - como cosmovisões rivais

Escrito por Leslie Stevenson & David I. Haberma

CONCEPÇÕES RIVAIS DA NATUREZA HUMANA

Há muitas coisas que dependem de nossa concepção da natureza humana: no caso dos indivíduos, o significado e o propósito de nossa vida, o que devemos fazer ou nos empenhar por conseguir, o que podemos alimentar a esperança de realizar ou de vir a ser; no caso das sociedades humanas, rumo a que visão de comunidade humana podemos esperar caminhar ou que tipo de mudanças sociais deveríamos fazer. Nossas respostas a todas essas perguntas tão complexas dependem de pensarmos se existe ou não alguma natureza “verdadeira” ou “inata” dos seres humanos. Se existe, qual é essa natureza? Ela difere entre homens e mulheres? Ou não existe nenhuma natureza humana “essencial”, mas apenas uma capacidade de ser moldado pelo ambiente social – por forças econômicas, políticas e culturais?

Há muitíssimas divergências acerca dessas questões fundamentais sobre a natureza humana. “O que é o homem, para dele te lembrares? ... Tu o fizeste pouco menos do que um deus, e o coroaste de glória e esplendor” – escreveu o autor do Salmo 8 no Antigo Testamento. A Bíblia vê os seres humanos como tendo sido criados por um Deus transcendente com um propósito definido para nossa vida. “A real natureza do homem é a totalidade das relações sociais”, escreveu Karl Marx em meados do século XIX. Marx negou a existência de Deus e sustentou que toda pessoa é um produto do estágio econômico particular da sociedade em que vive. “O homem está condenado a ser livre”, afirmou Jean-Paul Sartre, que escreveu na França ocupada pela Alemanha, nos anos 1940. Sartre também era ateu, mas diferia de Marx ao sustentar que nossa natureza não é determinada pela sociedade, nem por nenhuma outra coisa. Ele sustentava que toda pessoa individual é completamente livre para decidir o que quer ser e fazer. Em contraste com isso, recentes teóricos sociobiológicos trataram os seres humanos como um produto da evolução, sendo nós dotados de padrões de comportamento biologicamente determinados específicos da espécie.

Não há de escapar à atenção dos leitores contemporâneos que essas três citações, da Bíblia, de Marx e de Sartre, usam todas elas a palavra masculina “homem” (em tradução para o português) quando a intenção era presumivelmente fazer referência a todos os seres humanos, incluindo mulheres e crianças. Esse uso tem sido generalizado e costuma ser defendido como uma abreviação conveniente, mas viu-se recentemente criticado por contribuir para pressupostos questionáveis acerca do domínio da natureza humana masculina e para a consequente negligência com a relação à natureza feminina – ou para a consequente opressão desta. Há aqui importantes questões, que implicam bem mais do que o uso linguístico.[1] Tocamos em temas feministas em pontos específicos deste livro, mas não os abordamos diretamente: não há um capítulo sobre teorias especificamente feministas da natureza humana. Esforçamo-nos para evitar linguagem sexista em nossos próprios textos, mas dificilmente a podemos evitar quando se trata de citações.

Concepções diferentes da natureza humana levam a distintas ideias sobre o que devemos fazer e sobre como podemos fazer. Se um Deus todo-poderoso e supremamente bom nos criou, então é Seu propósito que define o que podemos ser e o que devemos fazer, e temos de buscar Sua ajuda. Se, por outro lado, somos produtos da sociedade, e se julgamos nossa vida insatisfatória, não pode haver uma solução real até que a sociedade humana seja transformada. Se somos radicalmente livres e nunca podemos fugir à necessidade da escolha individual, temos de aceitar essa condição e fazer nossas opções com plena consciência do que fazemos. Se nossa natureza biológica nos predispõe ou nos determina a pensar, a sentir e a agir de uma dada maneira, temos de levar isso em conta de forma realista.

Crenças rivais acerca da natureza humana são tipicamente personificadas em diferentes modos de vida individuais, bem como em sistemas políticos e econômicos. A teoria marxista (em alguma de suas versões) dominou a tal ponto os países de regime comunista no século XX que qualquer questionamento dela poderia trazer sérias consequências para seu autor. Podemos facilmente nos esquecer de que, há alguns séculos, o cristianismo exerceu uma posição dominante similar na sociedade ocidental: os hereges e não-crentes eram discriminados, perseguidos e até queimados na fogueira.[2] Mesmo em nossos dias, em alguns países e comunidades há um consenso cristão socialmente estabelecido a que as pessoas só podem se opor pagando algum preço. Na República da Irlanda, por exemplo, a doutrina católica romana tem sido aceita (até recentemente) como uma limitação imposta a políticas relativas a questões sociais como o aborto, a contracepção e o divórcio. A Igreja Católica exerce uma forte influência semelhante na Polônia pós-comunista. Nos Estados Unidos, um ethos cristão protestante informal afeta boa parte das discussões políticas, apesar da separação oficial entre a Igreja e o Estado.

Uma filosofia “existencialista” como a de Sartre pode dar a impressão de ter menos implicações sociais. Mas uma maneira de justificar a moderna democracia “liberal” consiste em recorrer à concepção filosófica segundo a qual não há valores objetivos para a vida humana, mas apenas escolhas individuais subjetivas. Esse pressuposto (que é incompatível tanto com o cristianismo quanto com o marxismo) tem grande influência na sociedade ocidental moderna, indo além de sua manifestação particular na filosofia existencialista francesa da metade do século XX. A democracia liberal se acha entronizada na Declaração de Independência do Estados Unidos, que apresenta uma separação entre política e religião e reconhece o direito de cada pessoa individual no sentido de buscar sua própria concepção de liberdade. (Deve-se, no entanto, observar que alguém que acredita que existem padrões morais objetivos ainda pode dar apoio a um sistema liberal se pensar que não é aconselhável tentar pô-los em prática.)


UMA COMPARAÇÃO ENTRE O CRISTIANISMO E O MARXISMO

Examinemos um pouco mais detalhadamente os cristianismo e o marxismo como teorias rivais da natureza humana. Embora sejam radicalmente diferentes no tocando ao conteúdo, apresentam notáveis semelhanças em termos de estrutura, na maneira como as partes de cada uma das doutrinas se integram entre e si e dão origem a modos de vida.[3] Em primeiro lugar, as suas doutrinas fazem alegações sobre a natureza do universo como um todo. É claro que o cristianismo está comprometido com a crença em Deus, num ser pessoal onipotente, onisciente e perfeitamente bom, o Criador, Dirigente e Juiz de tudo o que existe. Marx condenou a religião como “o ópio do povo”, um sistema de crenças ilusório que desvia as pessoas de seus reais problemas sociais. Ele sustentava que o universo existe sem ninguém por trás ou além dele, e que sua natureza é fundamentalmente material.

Tanto o cristianismo como o marxismo têm crenças acerca da história. Para o cristão, o significado da história é dado pela relação desta com o eterno. Deus usa os eventos da história para concretizar Seus propósitos, revelando-Se ao Seu povo prometido (no Antigo Testamento), mas sobretudo na vida e na morte de Jesus. Marx afirmava ter descoberto um padrão de progresso na história humana que é inteiramente intrínseco a ela. Julgava haver um desenvolvimento inevitável de um estágio econômico para outro, de maneira que, assim como o sistema econômico do feudalismo tinha sido superado pelo capitalismo, este seria substituído pelo comunismo. Ambas as concepções veem na história um padrão e um significado, embora concebam de modos distintos a natureza e a direção da força motriz.

Em segundo lugar, como decorrência das alegações conflitivas acerca do universo, há diferentes descrições da natureza essencial de seres humanos individuais. De acordo com o cristianismo, somos feitos à imagem de Deus, e nosso destino depende de nossa relação com Ele. Todas as pessoas são livres para aceitar ou rejeitar os desígnios de Deus, e serão julgadas de acordo com o modo pelo qual exerceram essa liberdade.[4] Esse juízo ultrapassa tudo o que existe nesta vida, dado que cada um de nós vai sobreviver à morte física. O marxismo nega que exista vida após a morte e qualquer juízo eterno desse gênero. Também descarta a liberdade individual e diz que nossas ideias e atitudes morais são determinadas pelo tipo de sociedade em que vivemos.

Em terceiro lugar, há diferentes diagnósticos sobre o que há de errado com a vida humana e a humanidade. O cristianismo afirma que o mundo não está de acordo com os propósitos de Deus, que nossa relação com Deus se acha desfeita, porque abusamos de nossa liberdade, rejeitamos a vontade de Deus e estamos contaminados pelo pecado. Marx substitui a noção de pecado pelo conceito de “alienação”, que também sugere algum padrão ideal a que a vida humana concreta não atende. A ideia de Marx, porém, parece ser de alienação do homem com relação a si mesmo, de sua verdadeira natureza: ele alega que os seres humanos têm um potencial que as condições socioeconômicas do capitalismo não lhes permite desenvolver.

A prescrição para um problema depende do diagnóstico. Assim, por último, o cristianismo e o marxismo oferecem respostas completamente divergentes aos males da vida humana. O cristão acredita que só o poder do Próprio Deus pode nos salvar de nosso estado de pecado. a declaração surpreendente é a de que, na vida e na morte de Jesus, Deus agiu com vistas a redimir o mundo. Todos precisam aceitar esse perdão divino para então poder iniciar uma nova vida regenerada. A sociedade humana só será de fato redimida quando os indivíduos se transformarem dessa maneira. O marxismo diz o oposto: não pode haver real melhoria das vidas individuais enquanto não ocorrer uma radical mudança da sociedade. O sistema socioeconômico do capitalismo tem de ser substituído pelo comunismo. Afirma o marxismo que essa mudança revolucionária é inevitável como decorrência das leis do desenvolvimento histórico; o que as pessoas têm de fazer é integrar-se ao movimento progressista e ajudar a abreviar as dores do parto da nova era.

Acham-se implícitas nessas prescrições rivais diferentes concepções de um futuro no qual a humanidades estará redimida ou regenerada. A visão cristã é das pessoas restauradas ao estado que Deus lhes destina, amando e obedecendo livremente ao seu Criador. A vida nova começa assim que o indivíduo aceita a salvação de Deus e se integra à comunidade cristã, mas o processo tem de se completar para além da morte, visto que os indivíduos e as comunidades são eternamente imperfeitos nesta vida. A visão marxista é a de um futuro neste mundo, de uma sociedade perfeita em que as pessoas possam ser quem de fato são, já não alienadas pelas condições econômicas, mas livremente ativas na cooperação de umas com as outras. É essa a meta da história, embora não se deva esperar que seja alcançada imediatamente depois da revolução: vai ser necessário um estágio de transição antes que a fase superior da sociedade comunista possa se concretizar.

Temos aqui dois sistemas de crença de alcance total. Tradicionalmente, cristãos e marxistas alegam ser portadores da verdade essencial sobre a totalidade da vida humana: fazem alguma declaração sobre a natureza de todos os seres humanos, em todas as épocas e em todos os lugares. E essas versões de mundo pedem não apenas assentimento intelectual como ação prática; quem de fato acredita em alguma dessas teorias deve aceitar suas implicações no que se refere ao seu próprio modo de viver e agir de acordo com isso.

Como último ponto de comparação, observe-se que, para cada um desses sistemas de crença, tem havido uma organização humana que pede a adesão dos fiéis e afirma ser dotada de uma certa autoridade tanto em termos de doutrina como de prática. Para o cristianismo há a Igreja, e, para o marxismo, o Partido Comunista. Ou, para ser mais preciso, há muito tempo existem igrejas cristãs rivais e uma variedade de partidos marxistas ou comunistas. Cada uma dessas igrejas ou partidos faz declarações concorrentes de que segue a verdadeira doutrina de seu fundador, definindo versões rivais da teoria básica como ortodoxas e seguindo diferentes políticas práticas.


NOTAS:
[1] Quanto à discussão do uso de linguagem sexista tem se tornado comum entre escritores sob a influência do feminismo, o que é lamentável, pois, não há depreciação intencional do valor essencial da mulher no uso tradicional da linguagem comum de dois gêneros.
[2] A diferença básica que os autores deveriam acentuar é que não é essencial à cosmovisão cristã esta postura de totalitarismo político. O marxismo busca o totalitarismo, inclusive pelo extermínio da oposição baseado na premissa básica da luta de classes, agindo coerentemente com a sua ideologia. Algumas facções cristãs, em momentos pontuais na história, exerceram incoerentemente ações políticas [por exemplo, a Inquisição, ou, as Cruzadas] quebrando os dois maiores mandamentos da fé cristã.
[3] É interessante que os autores neste parágrafo apresentem o cristianismo e o marxismo como dois sistemas de cosmovisão diferentes e incompatíveis. Leslie Stevenson e David I. Haberman descrevem neste artigo x forma mais lata de cristianismo abrangendo desde romanistas, ortodoxos, bem como protestantes no seu sentido mais lato. Ainda assim, o essencial da teoria marxista é diametralmente contrário ao essencial à fé cristã. Se levarmos o contraste para o plano de marxismo e calvinismo obviamente a rivalidade acentua mais ainda.
[4] A concepção de liberdade dos autores teologicamente resulta em semipelagianismo.


Extraído de Leslie Stevenson & David I. Haberman, Dez teorias da natureza humana (São Paulo, Editora Martins Fontes, 2005), pp. 5-12.

Os autores:
Leslie Stevenson é professor da University de St. Andrews, Escócia.
David I. Haberman é professor associado na Indiana University, EUA.
Notas de Rev. Ewerton B. Tokashiki.

28 março 2014

A Direita e a Esquerda

por Gene Edward Veith Jr.

Parte da dificuldade em reconhecer o fascismo é o pressuposto de que ele é conservador. Sternhell observou como o estudo da ideologia foi obscurecido pela "interpretação oficial marxista do fascismo". O marxismo define o fascismo como seu extremo oposto. Se o marxismo é progressivo, o fascismo é conservador. Se o marxismo é de esquerda, então o fascismo é de direita. Se o marxismo defende o proletariado, o fascismo defende a burguesia. Se o marxismo é socialista, o fascismo é capitalista.

A influência da escola marxista distorceu seriamente nossa compreensão sobre essa questão. O comunismo e o fascismo foram marcas rivais do socialismo. Enquanto o socialismo marxista pregava a luta de classes internacional, o nacional-socialismo fascista promoveu um socialismo centrado na unidade nacional. Tanto comunistas como fascistas se opunham à burguesia. Ambos atacavam os conservadores. Ambos foram movimentos de massa, que tinham uma simpatia especial pela intelligentsia, pelos estudantes e pelos artistas, assim como pelos trabalhadores. Ambos eram favoráveis a governos fortemente centralizadores e rejeitavam a livre economia e os ideais da liberdade individual. Os fascistas não se viam como de direita nem como de esquerda. Eles acreditavam que constituíam uma terceira força, que sintetizava o melhor dos dois extremos. Há importantes diferenças e amargos antagonismos ideológicos entre o marxismo e o fascismo; mas sua oposição mútua não deveria disfarçar seu parentesco como ideologias socialistas revolucionárias.

Tampouco as figura de linguagem como direita e esquerda ou construções artificiais como reacionários e radical deveriam obscurecer o modo de pensar que permeia um largo espectro de posições políticas e sociais. A metáfora de esquerda e direita que retrata as duas ideologias revolucionárias como opostos extremos é profundamente enganadora. Jaroslav Krejci mostrou a inadequação da "imagem unilinear" de esquerda vs. direita. Ele indica que a metáfora vem da arrumação dos bancos no parlamento francês depois da Revolução. Politicamente, os que ficavam sentados à direita eram favoráveis a um monarca absoluto. Economicamente, eles eram favoráveis aos monopólios do governo e a uma economia controlada. Os que se sentavam à esquerda eram favoráveis à democracia, à economia de livre mercado, e à liberdade individual.

Tal metáfora espacial correspondia bem à geometria cartesiana do Iluminismo e às opções políticas do século 18, mas não funciona como um modelo da política do século 20. Em termos do modelo original, os conservadores norte-americanos que almejavam menos governo e confiavam no livre mercado seriam de esquerda. Os liberais que pretendiam uma economia mais direcionada pelo governo seriam de direita. Liberal e conservador são em si mesmos termos relativos - dependentes do que cada um tem de manter. Os liberais do século 19, com sua economia de livre mercado e resistência aos controles governamentais, são os conservadores do século 20.

Quando pensamos em alternativas socialistas, como Krejci nos mostra, os limites de esquerda e direita se tornam sem sentido. Os marxistas declaram a prática da economia controlada e têm um governo geral forte e autoritário com controles rígidos sobre suas populações. Eles deveriam se sentar na ala direitista do parlamento francês. Por outro lado, os marxistas são revolucionários e assim são certamente anticonservadores. O socialismo fascista, apesar de suas diferenças com o marxismo, é semelhante a este quanto a uma economia controlada, um forte governo central e um controle rígido sobre o populacho e, ao mesmo tempo, cultural e intelectualmente radical. Entretanto, como Krejci, diz "apesar das muitas afinidades entre eles, os comunistas continuam a ser visto como de extrema esquerda e os nazistas como de extrema direita". Como resultados, aqueles que acham que estão sendo esquerdistas "politicamente corretos" acusam os conservadores de "direita" de estar sendo fascistas, mas não se lembram das tendências fascistas que eles mesmos têm.


Extraído de VEITH Jr, Gene Edward, O fascismo moderno (São Paulo: Cultura Cristã, 2010), pp. 24,25
Caso se interesse em adquirir o livro acesse o site da EDITORA CULTURA CRISTÃ

Crédito pela indicação do texto do Blog TEOLOGIA E APOLOGÉTICA [Recomendado]

22 março 2014

OS SISTEMAS ECONÔMICOS À LUZ DA ÉTICA CRISTÃ

Escrito por Francisco Lacueva

Antes de analisar os principais sistemas econômicos é bom adiantar as três fontes que intervém na produção da riqueza, que são: o trabalho, a técnica e o capital. Não cabe dúvida de que a fonte primordial é o trabalho, entendendo-o não somente como produção, mas também como ocupação de algo que não tem dono (“res nullius” na terminologia do Direito Romano). Os limites entre as fazendas privadas são consideradas sagradas no Antigo Testamento (Dt 27:17; Os 5:10). À luz destas considerações podemos examinar com melhor conhecimento de causa os principais sistemas econômicos:

1. O Capitalismo
Como produto do liberalismo econômico, o capitalismo propugna a liberdade completa (a qualificação ética subjetiva varia segundo a consciência dos indivíduos e as leis dos Estados) na aquisição da riqueza e o emprego do capital segundo as leis da oferta e procura. Pode-se produzir altos níveis de vida para o serviço do conforto e do luxo de muitas pessoas, mas também favorece a desigualdade social, o materialismo e a avareza. As suas contribuições estão manchadas de paternalismo. O seu argumento é que a desigualdade básica dos homens quanto a sua capacidade e esforço pelo trabalho não pode menos que produzir desigualdade econômica, pois vemos que, de dois irmãos que herdam a mesma fortuna, um pode fazer-se milionário com o seu talento e esforço, enquanto que o outro, pode se afundar na miséria por sua incapacidade, prodigalidade e ociosidade. Isto é somente uma verdade parcial, posto que a necessidade de viver uma vida digna vai além da desigualdade de capacidade; e, por outra parte, muitos indivíduos que têm capacidade e anseio por trabalhar não podem entrar tão facilmente na carreira competitiva que impõe o sistema capitalista.

2. O Socialismo
É o sistema que propõe a propriedade pública dos meios de produção, câmbio e distribuição, dando às forças produtivas, ou “proletariado” o controle das condições de existência e do poder político da nação. Ele teve origem em Karl Marx, e sua filosofia, no plano puramente econômico, e se baseia em dois princípios: 1) o mais-valia do trabalho sobre o salário: o trabalhador produz algo que vale mais do que o salário que cobra, posto que uma boa parte de seu produto passa a aumentar o volume do capital de quem o emprega como trabalhador; 2) a introdução pelo capitalismo de um meio de aquisição alheio de intermediários, os quais elevam o custo dos produtos sem por de sua parte outra coisa que os distribuidores aos consumidores, enriquecendo-se, assim, a custa destes, sem contribuir em nada para a produção ou para a produção, ou para o melhoramento dos bens de uso ou consumo. Este sistema se divide em dois subsistemas que são:

2.1. O socialismo reformista, chamado simplesmente socialismo (e também social democracia), que defende a coletivização dos meios de produção, mas admite a propriedade privada dos bens de consumo; mesmo porque, não insiste demasiadamente nos aspectos ateus e dialéticos do marxismo, e estima que a tomada do poder será feito de acordo com o jogo democrático dos partidos, ou seja, pela evolução social, mais do que pela revolução sangrenta. Assim é, pelo menos, como o Socialismo aparece em nossos dias, liberando-se na mesma medida em que o Capitalismo de alguns países vai se sociabilizando.

2.2. O comunismo, sendo estatal e libertário, que defende a coletivização não somente dos meios de produção, mas também dos bens de consumo. Insiste nos aspectos ateus e dialéticos do marxismo, aspirando chegar pela via revolucionária até a ditadura do proletariado.

Desconsiderando dos aspectos políticos e econômicos destes sistemas e limitando-nos ao aspecto ético, temos que dizer que qualquer sistema que favoreça a exploração do homem pelo homem, ou pelo Estado, ou negue os valores espirituais, ou favoreça a desigualdade econômica das classes sociais, é contrário à dignidade da pessoa humana e ao espírito do Evangelho. Em vez disso, todo sistema em que o homem possa exercer desimpedido a sua capacidade criativa e ajudar as suas necessidades e às de sua família mediante um trabalho remunerado, e em que se coloquem por obra das exigências da justiça social, é compatível com o espírito do Evangelho.


Extraído de Francisco Lacueva, Ética Cristiana – Curso de Formación Teológica Evangélica (Barcelona, Editorial CLIE, 1993), pp. 204-206.

Traduzido em 15 de Março de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO.

21 março 2014

Calvinismo e Capitalismo - qual mesmo é a sua relação?

Escrito por Alderi Souza de Matos

A questão de como se relacionam o calvinismo e o capitalismo tem sido objeto de enorme controvérsia, estando longe de produzir um consenso entre os estudiosos. O tema popularizou-se a partir do estudo do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) intitulado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, publicado em 1904-1905. Numa tese oposta à de Karl Marx, Weber concluiu que a religião exerce uma profunda influência sobre a vida econômica. Mais especificamente, ele afirmou que a teologia e a ética do calvinismo foram fatores essenciais no desenvolvimento do capitalismo do norte da Europa e dos Estados Unidos.

Weber partiu da constatação de que em certos países da Europa um número desproporcional de protestantes estavam envolvidos com ocupações ligadas ao capital, à indústria e ao comércio. Além disso, algumas regiões de fé calvinista ou reformada estavam entre aquelas onde mais floresceu o capitalismo. Na sua pesquisa, ele baseou-se principalmente nos puritanos e em grupos influenciados por eles. Ao analisar os dados, Weber concluiu que entre os puritanos surgiu um "espírito capitalista" que fez do lucro e do ganho um dever. Ele argumenta que esse espírito resultou do sentido cristão de vocação dado pelos protestantes ao trabalho e do conceito de predestinação, tido como central na teologia calvinista. Isso gerou o individualismo e um novo tipo de ascetismo "no mundo" caracterizado por uma vida disciplinada, apego ao trabalho e valorização da poupança. Finalmente, a secularização do espírito protestante gerou a mentalidade burguesa e as realidades cruéis do mundo dos negócios.

Calvino de fato interessou-se vivamente por questões econômicas e existem elementos na sua teologia que certamente contribuíram para uma nova atitude em relação ao trabalho e aos bens materiais. A sua aceitação da posse de riquezas e da propriedade privada, a sua doutrina da vocação e a sua insistência no trabalho e na frugalidade foram alguns dos fatores que colaboraram para o eventual surgimento do capitalismo. Mesmo um crítico contundente da tese de Weber como André Biéler admite: "Calvino e o calvinismo de origem contribuíram, certamente, para tornar muito mais fáceis, no seio das populações reformadas, o desenvolvimento da vida econômica e o surto do capitalismo nascente" (O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 661). Todavia, esse e outros autores têm ressaltado como a ética e a teologia do reformador divergem radicalmente dos excessos do capitalismo moderno. Por causa das difíceis realidades econômicas e sociais de Genebra, Calvino escreveu amplamente sobre o assunto. Ele condenou a usura e procurou limitar as taxas de juros, insistindo que os empréstimos aos pobres fossem isentos de qualquer encargo. Ele defendeu a justa remuneração dos trabalhadores e combateu a especulação financeira e a manipulação dos preços, principalmente de alimentos. Embora considerasse a prosperidade um sinal da bondade de Deus, ele valorizou a pessoa do pobre, considerando-o um instrumento de Deus para estimular os mais afortunados à prática da generosidade. A tese de que as riquezas são sinais de eleição e a pobreza é sinal de reprovação é uma caricatura da ética calvinista. Para Calvino, a propriedade, o lucro e o trabalho deviam ser utilizados para o bem comum e para o serviço ao próximo.

Em conclusão, existe uma relação entre o calvinismo e o capitalismo, mas não necessariamente uma relação de causa e efeito. Provavelmente, mesmo sem o calvinismo teria surgido alguma forma de capitalismo. Se é verdade que a teologia e a ética reformadas se adequavam às novas realidades econômicas e as estimularam, todavia, o tipo de calvinismo que mais contribuiu para fortalecer o capitalismo foi um calvinismo secularizado, que havia perdido de vista os seus princípios básicos. Entre esses princípios está a noção de que Deus é o Senhor de toda a vida, inclusive da atividade econômica, e, portanto, esta atividade deve refletir uma ética baseada na justiça, compaixão e solidariedade social.

Extraído do site Thirdmill - acessado em 25 de Março de 2009.

20 março 2014

Este tal Karl Marx [1818-1883]

Escrito por D.B. Fletcher

As ideias filosóficas de Karl Marx constituem uma das principais alternativas contemporâneas para o paradigma cristão. Marx nasceu em 5 de Maio de 1818 no povoado prussiano de Trier, filho de pais de linhagem genealógica rabínica; mas o seu pai, Heschel e seus filhos foram batizados na fé luterana visando conversar a posição da família diante da opressão religiosa prussiana. Heschel, sob o nome de Henrique Marx, um advogado com ponto de vista próprio sobre o Iluminismo, impôs uma poderosa influência sobre o seu filho.

Após estudar um ano na Universidade de Bonn, Marx se mudou para as proximidades da Universidade de Berlim a fim de estudar direito e filosofia. Naquele lugar se submeteu à grande influência do pensamento do recém falecido filósofo G.W. F. Hegel (1770-1831). Marx se uniu a um grupo chamado Jovens Hegelianos, que interpretava numa direção radical os pontos de vista de Hegel sobre o processo histórico, e sobre o papel da crítica, a diferença do hegelianismo convencional que idealizava a ordem social prussiana da época. Seguindo o pensamento de Bruno Bauer (1809-1882) e Ludwig Feuerbach (1804-1872), Marx interpretou a fé cristã como algo fundamentado sobre o mito, e como expressão das necessidades psicológicas humanas. Marx filosoficamente se converteu ao ateísmo e ao materialismo, escrevendo a sua tese de doutorado sobre os materialistas gregos Demócrito (aproximadamente entre 460-370 a.C.) e Epicuro (aproximadamente entre 341-270 a.C.). Após o desaparecimento dos Jovens Hegelianos na Prússia e o abandono de Bauer, Marx foi obrigado a submeter a sua tese na Universidade de Jena, que lhe concedeu o doutorado em 1841. Dois anos mais tarde casou-se com Jenny, a filha do Barão von Westphalen.

Marx trabalhou como periodista nos anos seguintes, escrevendo para periódicos da Prússia, Paris e Bruxelas e associando-se com movimentos operários internacionais. Também começou a colaborar com Friedrich Engels (1820-1895), filho de um industrial de Manchester, que oferecia durante muitos anos o seu apoio financeiro para Marx. Em 1849, Marx se transferiu para Londres e iniciou os seus estudos sobre os teóricos econômicos britânicos Adam Smith (1723-1790) e David Richard (1772-1823), enquanto sobrevivia em condições tão paupérrimas que somente três de seus sete filhos chegaram à maturidade.[1] Marx nos anos seguintes tornou-se conhecido internacionalmente devido a seu apoio a uma revolta operária entre os anos 1870-1871, conhecida como a Comuna de Paris, e se envolveu ativamente em debates por toda Europa. Marx faleceu em Londres, em 14 de Março de 1883; pouco antes haviam falecido a sua esposa e sua filha caçula.

Marx deixou um enorme legado de obras escritas produzidas basicamente entre 1845-1876, que culminaram em sua obra mestra Das Capital. Encontramos como elemento central de seu pensamento o conceito de que os seres humanos são essencialmente transformadores da natureza mediante o trabalho; a humanidade é Homo Faber, o homem que cria, no lugar do Homo Sapiens, o homem que sabe. Assumindo que a natureza humana se fundamenta no trabalho, devemos abordar as condições do esforço humano para compreender a história, a cultura e as circunstâncias humanas. A sociedade capitalista exige trabalhadores para colocar a sua natureza essencial nas mãos dos capitalistas, que pagam o seu salário, comprando em troca a sua energia produtiva – criadora. Assumindo que os capitalistas controlam os meios de produção, o êxito do trabalhador concentra a riqueza e o poder nas mãos dos capitalistas, que os usam em detrimento do trabalhador. Quando mais produzem os trabalhadores, mais pobres se tornam, em termos tanto espirituais como econômicos. Os seres humanos se veem alienados com seus congêneres, da natureza e de si mesmos nessa situação econômica fundamentalmente escraviza no que devem ganhar o seu pão de cada dia.

As relações econômicas determinam a forma e a natureza da vida social, cultural, intelectual e religiosa. As realidades econômicas, ou “relações de produção”, é o “fundamento econômico” sobre o qual se baseia a “superestrutura” da lei, consciência, a vida intelectual e a fé religiosa. Este paradigma chamado de “materialismo histórico” implica que somente alterando os fatos concretos da vida econômica é possível modificar a sociedade e não mediante a crítica intelectual de sua superestrutura. Além do mais, permite que se descartem as ideias contrárias da análise marxista como mera “ideologia” capitalista.

Marx cria que a história humana é uma série de lutas entre os grupos (ou classes) economicamente antagônicos, um processo que vemos hoje em dia no conflito entre o proletariado, ou classe operária e a burguesia, ou classe capitalista. A burguesia, por sua própria natureza, extraí valor do proletariado, retirando a sua força ao apartá-lo do “valor do excedente” produzido por seu labor e criando benefícios a partir do mesmo. As “contradições” do capitalismo fazem com que cada vez sejamos menos estáveis, até que no curso da história o proletariado se levante e arrebata os meios de produção. Depois de um período previsível e desagradável do “cru comunismo” emergirá o verdadeiro comunismo, mediante o qual o povo superará a alienação e alcançará a verdadeira humanidade dentro da irmandade do paraíso do trabalhador.

A ideia de Marx de que a consciência, incluindo todas as ideias filosóficas, éticas e religiosas, é produto dos fatores econômicos e se estabelece em sua conhecida opinião de que a religião é o “ópio do povo”. Segundo, Marx a religião joga uma função na opressão da humanidade. A religião é produto da alienação; a humanidade separada de suas melhores características investe com eles numa deidade fantástica. E que por sua vez, a religião ajuda os opressores a manter a sua posição de privilégio sobre os oprimidos, justificando a situação existente. Marx nunca abordou os dogmas religiosos pelo exame direto das afirmações filosóficas teístas, ou pela evidência bíblica; no entanto, assumiu que o teísmo cristão é falso e, em seguida intentou explicar ao mundo esta ilusão.

A relação entre Cristianismo e Marxismo é controvertida. Alguns creem que, devido ao ateísmo essencial de Marx, o Marxismo jamais poderá ser um elemento dentro do paradigma cristão. Outros argumentam que a visão marxista da libertação humana é religiosa, no sentido de que Marx simplesmente secularizou o interesse profético bíblico pelos pobres e os oprimidos, assim, como sua esperança de um reino escatológico. Além do mais, a sua visão da humanidade não alienada, livre para trabalhar, criar e compartilhar, se assemelha com a visão bíblica do shalom.[2] Os teólogos da libertação utilizam análises derivadas de Marx, em especial o conceito da luta de classes, para desafiar as condições sociais existentes no Terceiro Mundo, e das ideias de minorias em todo o planeta. No entanto, muitos evangélicos creem que os adeptos da Teologia da Libertação atribuem demasiadas coisas ao marxismo, todos devemos compartilhar da sua preocupação pelos pobres, que padecem nas mãos dos poderosos (Tg 5:1-6).[3]


NOTAS:
[1] Infelizmente o articulista preserva o mito de que Karl Marx viveu parte de sua vida na extrema pobreza. Recomendo a leitura do capítulo de Gary North, “El mito de la pobreza de Marx” in: La Religión Revolucionaria de Marx – la regeneración por médio del caos (Tyler, Instituto Para la Economía Cristiana, 1990), pp. 249-273. Em breve a tradução deste artigo estará disponível no blog.
[2] A proposta sócio-econômica de Marx não se assemelha nem de longe do conceito hebraico shalom! A premissa básica marxista de igualdade social, rejeitando a meritocracia, bem como afirmando uma revolução estabelecida por meio luta de classes, não tem relação, nem essencial nem periférico, com o conceito de justiça social bíblico.
[3] A conclusão do artigo infelizmente foi bem superficial.

D.B. Fletcher, B.A., M.A., Ph.D., professor associado de Filosofia no Wheaton College, professor adjunto de Bioética no Trinity Evangelical Divinity School.

Extraído de D.B. Fletcher, “Marx, Karl,” in: David J. Atkinson, ed., Diccionario de Ética Cristiana y Teología Pastoral (Barcelona, Editorial CLIE & Publicaciones Andamio, 2004), pp. 778-780.

Traduzido em 17 de Março de 2014.
Rev Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO.

19 março 2014

Anarquia - como teoria política

Escrito por A.F. Holmes

A Anarquia (lit. “sem governo”) denota certa gama de circunstâncias que vão desde a inexistência de leis e o caos social até um sistema cooperativo de associações voluntárias como estrutura social preferida. O conceito comum a todos estes usos é a rejeição de um governo autoritário a favor de uma organização voluntária, para garantir a máxima liberdade individual compatível com a existência da sociedade. Contempla com suspeita as estruturas legais, incluindo as instituições democráticas e os partidos políticos.

As tendências anarquistas são um fenômeno histórico recorrente. Alguns exemplos incluíram a Zenon (aproximadamente 263 a.C.), o estoico grego que rejeitou as ataduras da cultura; os antigos essênios; alguns anabatistas primitivos; os Doukhabors, uma seita russa do século XVIII; os Levelles na guerra civil inglesa; e outros grupos que defendiam que Cristo nos libertou de todos os males deste mundo e das ataduras da lei. Baseando-se num fundamento religioso parecido com este, Leon Tolstóy denunciou ao estado e seu domínio das leis, renunciando inclusive as suas propriedades e a sua posição social. O escritor norte-americano Henry Thoreau (1817-1862) adotou um paradigma baseado num fundamento romântico e alguns revolucionários soviéticos rejeitaram a “ditadura do proletariado” de Marx a favor de um sindicato de grupos trabalhistas voluntários. Mais recentemente os estudantes ativistas dos anos 60, em diversos países, se rebelaram contra o status quo social e político. Na obra Anarchy, State and Utopia de Robert Nozick (1938- ) encontramos uma expressão mais de direitas deste tipo de ideias anarquistas; nela o autor insiste em que os indivíduos tem a liberdade de conseguir todo o que se proponham, sempre que o lhes tirem ilegalmente de outros. Este direito que tem o indivíduo de conseguir o seu objetivo, constituí assim, o fundamento central da sociedade.

A preferência anarquista pelas estruturas voluntárias antes que legais assume que os seres humanos são bons por natureza, que a coação é desnecessária, e que a autoridade governamental tende a fazer mais mal do que bem. A Bíblia, como contraste, fala da autoridade civil como algo ordenado por Deus para limitação da maldade e do fomento da bondade (Rm 13:1-7; 1 Pe 2:13-17).

A.F. Holmes, B.A., M.A., Ph.D., professor de Filosofia no Wheaton College.


Extraído de A.F. Holmes, “Anarquia,” in: David J. Atkinson, ed., Diccionario de Ética Cristiana y Teología Pastoral (Barcelona, Editorial CLIE & Publicaciones Andamio, 2004), pp. 226-227.

Traduzido em 17 de Março de 2014.
Rev Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO.

18 março 2014

Como a ética evolucionária influenciou Adolf Hitler

Por Richard Weikart

Um ponto que eu explico no meu livro From Darwin to Hitler: Evolutionary Ethic, and Racism in Germany, despertou considerável controvérsia, e inflamou-se ainda mais depois que Ben Stein me entrevistou para o documentário: Expelled: No Intelligence Allowed, que promoveu o Designer Intelligent. Esta controvérsia girou em torno da alegação de que Hitler e os nazistas foram influenciados profundamente pelo Darwinismo.

Quando comecei investigar o impacto do Darwinismo na ética, moralidade e pensamento social no final do século XIX na Alemanha, Hitler e o nazismo não eram o meu campo de pesquisa. No entanto, como eu comecei a descobrir as conexões entre o Darwinismo e a eugenia, eutanásia e extermínio racial, não pude deixar de notar como muitas ideias estão sendo promovidas em nome da ética evolucionista, e isto se assemelhava notavelmente semelhante a ideologia nazista. Afinal, os nazistas tinham desenvolvido o programa mais radical de esterilização obrigatório no mundo, a fim de tentar melhorar a hereditariedade humana. Tudo começou após a Segunda Guerra Mundial, com os milhares de assassinatos de deficientes.

Então, comecei a estudar a ideologia de Hitler em profundidade para descobrir o quão importante era o Darwinismo em sua cosmovisão. Muitos historiadores haviam comentado sobre a importância do Darwinismo social na ideologia de Hitler. No entanto, poucos tinham explorado isso a partir do ângulo da ética evolucionista. Eu descobri que, apesar de Hitler nunca ter usado o termo “ética evolutiva”, ele realmente baseou a sua moralidade sobre a evolução darwiniana.

Quando escrevi From Darwin to Hitler: Evolutionary Ethic, and Racism in Germany apenas o capítulo final explicita o papel do darwinismo na cosmovisão de Hitler. Este capítulo provocou uma enorme controvérsia, porém, com alguns críticos da internet alegando que Hitler rejeitou o Darwinismo, e, portanto, ele era um criacionista. Assim, decidi escrever um livro inteiro dedicado ao papel da evolução na cosmovisão de Hitler: Hitler’s Ethic: The Nazi Pursuit of Evolutionary Progress. Então, demonstrei não apenas que Hitler acreditava na evolução darwiniana, incluindo a evolução dos seres humanos, mas também, demonstrei em detalhes que a ética evolucionista foi central para a cosmovisão de Hitler. Ela influenciou muitos elementos da ideologia nazista e política, incluindo:

1) A desigualdade racial:
Hitler acreditava que diferentes raças haviam se formado através de processos evolutivos e ocupavam diferentes níveis evolutivos. Ele pensava que a raça ariana ou nórdica (esses termos foram usados como sinônimos pelos nazistas) era a mais avançada. Estas opiniões não eram idiossincráticas, mas eram comuns entre os biólogos evolucionistas alemães no início do século XX.

2) A história como uma luta racial para a existência:
Hitler pensava que as raças estavam presas num inevitável conflito racial. Ele promoveu políticas que obviamente favoreciam aos arianos, enquanto que colocam em desvantagem outras raças supostamente, especialmente os judeus, a fim de ajudar os arianos vencer a luta pela existência. Naturalmente, os judeus e similares perderiam a luta e seriam eventualmente eliminados, de uma forma ou de outra, e os arianos receberiam todo o globo.

3) Políticas eugênicas, como esterilização obrigatória, abortos forçados e morte de pessoas com deficiência:
Estas políticas de eugenia foram projetadas para prevenir a degeneração biológica e ajudar ao longo do processo de evolução.

4) A unidade de expansão da população:
Darwin alegou em Descent of Man que a taxa de natalidade não deve ser limitada, porque uma taxa de natalidade mais elevada seria vantajosa para a evolução. Hitler concordou e muitas vezes, e expressou a mesma opinião.

5) A necessidade de adquirir espaço de vida (através de meios militares):
Esta ideia se originou com Friedrich Ratzel, um alemão biólogo darwiniano que se tornou um geógrafo, que argumentou que a luta pela existência era essencialmente uma luta por espaço. Hitler expressou muitas vezes a necessidade de espaço de vida em termos evolutivos. Ele vinculou a expansão da população com a luta racial. Ganhando espaço para viver, e expulsando os habitantes, a maneira de melhorar a espécie humana seria aumentando a corrida "mestre" em detrimento das raças “inferiores”.

6) A evolução dos traços morais:
Hitler, como muitos outros biólogos contemporâneos e psiquiatras, argumentou que as características morais foram biologicamente determinadas. Ele acreditava que os arianos tinham uma moralidade mais avançada, por serem supostamente mais leais, honestos, diligentes, etc.. Por outro lado, ele considerou os judeus biologicamente imorais, pois ele os culpava serem preguiçosos, mentirosos, sexualmente lascivos, gananciosos, e etc.. Assim, ao livrar o mundo dos judeus e substituí-los por arianos, Hitler em sua própria perspectiva pervertida, pensou que estaria melhorando o mundo, banindo a imoralidade e aumentando a moralidade.

Por que isso importa? Como muitos de meus críticos têm apontado, de fato, a maioria dos darwinistas não são nazistas. Então, por que devemos nos preocupar se os nazistas usaram o Darwinismo para seus próprios propósitos pervertidos?

Embora seja improvável que algo parecido com o Nazismo nunca mais surja novamente das premissas darwinistas, ainda hoje há muitas outras maneiras em que o Darwinismo está sendo usado para desvalorizar a vida humana (como eu mostrei no meu parte anterior). O aborto está desenfreado, e a eugenia bem como a eutanásia está, mais uma vez, tornando-se um assunto atual nos círculos acadêmicos. Embora o Darwinismo não seja a única causa dessa desvalorização da vida humana, muitos estudiosos proeminentes, tais como Peter Singer e Richard Dawkins, admitem que a teoria desempenha um papel significativo.


Sobre o autor: Richard Weikart é professor de história na California State University, Stanislaus, e autor de From Darwin to Hitler: Evolutionary Ethics, Eugenics, and Racism in Germany e Hitler’s Ethic: The Nazi Pursuit of Evolutionary Progress.

Extraído de http://www.credomag.com/2012/01/05/how-evolutionary-ethics-influenced-hitler-and-why-it-matters/ acessado em às 17:00h, em 18 de Março de 2014.


Traduzido em 18 de Março de 2014.
Rev Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO.

Os problemas de Mark Driscoll e os nossos

A crise na liderança americana evangélica

Escrito por Carl R. Trueman

A recente revelação de que Mars Hill Church, em Seattle, pagou uma empresa externa para impulsionar as vendas dos livros de seu pastor, levantou questões não apenas sobre a integridade pessoal, mas também sobre a própria cultura do evangelicalismo americano.

Como um presbiteriano inglês vivendo nos EUA, eu nunca tenho a certeza sobre se eu sou, ou não, um "evangélico" no padrão norte-americano. Quando volto para casa, eu sei que sou evangélico, sem dúvida, mas aqui é mais complicado. De fato, eu sustento uma fé protestante tradicional, ortodoxo, com uma forte inclinação existencial. Mas o evangelicalismo americano é mais (e, às vezes, muito menos) do que isso. Os compromissos políticos do movimento são, em geral, um mistério para mim. E, embora, o modelo de liderança celebridade do movimento é compreensível para mim em termos sociológicos, acho que é de mau gosto e duvidosamente não-bíblica. É muitas vezes parece representar exatamente o que Paulo estava criticando em 1 Coríntios 1 .

Aos que não estão familiarizados com a recente história evangélica americana, algumas informações do contexto: a seis ou sete anos atrás, o Calvinismo se tornou legal. Mais do que isso, o Calvinismo se tornou tão legal que começou a tornar-se uma mercadoria muito vendável e para atrair muito dinheiro. Um movimento amplo, eclético e dinâmico surgiu, apelidado do “Jovem, Inquietos e Reformados” após o título de um livro escrito por Collin Hansen. Com isto, as igrejas calvinistas pareciam crescer como as principais igrejas empenhadas na luta. O recrutamento em seminários reformados permaneceu aquecido, ao mesmo tempo em que foram recusados em outro lugar. Os jovens estavam lendo teologia séria e procuraram conectar a sua fé com todas as áreas de suas vidas.

Como professor em um seminário reformado e como um pastor de uma igreja presbiteriana, eu certamente, me alegrei com o interesse renovado pelo ensino dos reformadores que esse movimento ajudou a gerar. Eu, pessoalmente, fui beneficiado com o movimento de muitas maneiras. O seu advento foi oportunamente muito bem-vindo. Como o poeta disse: “Estar vivo era a felicidade matinal, / Mas ser jovem era algo celestial!"

No entanto, o movimento, tal como ele era, logo começou a mostrar sinais de tensão. Mark Driscoll e James MacDonald compartilharam de uma base comum cristã com T.D. Jakes, um pregador da prosperidade e um ministro em uma denominação unitarista. Como resultado, eles desceram do Gospel Coalition, a organização emblemática do movimento, com os melhores desejos para seu futuro ministério, mas com fortes indícios que nos bastidores a sua saída tinha sido menos amigável. Em seguida, outras questões vieram à tona: No ano passado, surgiu a notícia de que Mark Driscoll teria usado escritores fantasmas para produzir alguns dos seus livros, e que o material aparentemente teria sido retirado a partir de outros autores sem a devida citação. Finalmente, na semana passada, veio a revelação de que o seu livro sobre casamento teria se tornando num best-seller com o uso de mais recurso financeiro da igreja, do que muitas congregações têm em todo o seu orçamento anual.

Mark Driscoll é uma pessoa, um indivíduo singularmente talentoso. No entanto, ele também tem promovido problemas estruturais dentro do próprio movimento dos novos reformados. Apesar das diferenças e, em muitos aspectos, sofisticações na sua teologia o movimento “jovem , inquieto e reformado” sempre foi , de algum modo, simplesmente a mais recente manifestação dos aspectos mais fracos da América evangelicalismo. Foi, e é, um movimento construído sobre o poder de um grupo seleto de personalidades dinâmicas, competentes comunicadores, e pregadores talentosos que tem usado o marketing de forma muito atraente. Essas coisas podem ter grandes benefícios, mas quando não há prestação de contas real envolvido, quando acordos financeiros são obscuros ao extremo, e quando personalidades começam a suplantar a mensagem, sérios problemas nunca estão longe.

O quadro geral é de desastre. Dentro da igreja, eu suspeito que a maioria dos pastores olham com horror para a quantidade de dinheiro envolvido em alguns desses projetos e se afastará por desgosto. Fora da igreja, as pessoas conhecem com nitidez esta prática quando a veem, não importa o quão estritamente legal ela possa ser. A reputação da igreja sofre, e, infelizmente, ele não sofre neste caso injustamente.

Então, finalmente, há o silêncio. A única coisa que poderia manter o movimento unido seria uma liderança pública forte, transparente, que abertamente policiada em si e, portanto, anunciando a sua integridade para que todos possam ver. No entanto, a coisa mais notável sobre toda esta triste saga, foi a partir do envolvimento com Jakes, e que até agora, mantém-se o silêncio de muitos destes homens que se apresentam como líderes do movimento, e que estavam felizes, naquele momento, para beneficiar a reputação e influência de Mark Driscoll. Alguém pode interpretar esse silêncio como uma recusa apropriada de comentar diretamente sobre o ministério de homens que não têm qualquer ligação formal com suas próprias organizações.

No entanto, os líderes do “jovem, inquieto e reformado” não têm normalmente autorizado a redução dos seus antigos comentários. Muitos deles são francos, por exemplo, quanto ao ensino de Joel Osteen. Em seus primeiros dias, quando a Igreja Emergente estava disputando com o Novo Calvinismo pela prominência no mundo evangélico americano, eles fizeram com regularidade, e muitas vezes de modo minucioso, algumas críticas aos líderes emergentes. Em retrospectiva, no entanto, é evidente que estes eram alvos fáceis. A sua própria distância teológica os manteve seguros. Problemas mais perto de casa são sempre muito mais difíceis de falar, muito mais chances de ganhar o desprezo de amigos, e, portanto, muito mais propensos a serem ignorados. O resultado, porém, é que alguns líderes se tornam muito acostumados a sempre fazerem as coisas à sua maneira. Todos nós, que pensamos como evangélicos, ou reformados, viveremos com o fruto amargo daquele fracasso da liderança.


Escrito por Carl R. Trueman is Paul Woolley Professor of Church History at Westminster Theological Seminary.

Extraído de http://www.firstthings.com/web-exclusives/2014/03/mark-driscolls-problems-and-ours acessado às 9:30h, em 15 de Março de 2014.

16 março 2014

Os sistemas políticos e a ética cristã

Escrito por Francisco Lacueva

A fé cristã não está ligada a nenhum sistema político, e o crente é livre para simpatizar, aderir, votar, etc. a favor de qualquer partido ou sistema político que salvaguarde o conceito de autoridade, a liberdade e dignidade da pessoa humana e permita a confissão e testemunho público das crenças religiosas dos cidadãos. Há dois sistemas extremos que atentam contra estes princípios: o totalitarismo e o anarquismo.

1. O totalitarismo, ou seja, o fascista, nazista ou marxista, impõe de cima pra baixo uma única classe de filosofia de vida em todas as esferas sociais, perdendo a dignidade e liberdade da pessoa e absorvendo o controle total de todos os aspectos que afetam a vida social, incluindo o religioso. Um crente não pode admitir isto, e tem que repetir o que Pedro disse diante o Sinédrio (At 5:29).

2. O anarquismo, como o seu nome indica, se apõe a toda autoridade, o qual é igualmente inadmissível para todo crente. Paulo disse claramente: “de modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação” (Rm 13:2). Um terceiro sistema pode ser admitido.

3. A democracia que pode definir-se como “o governo do povo pelo povo e para o povo.” É um sistema que dá liberdade ao homem para seguir e expressar as suas convicções pessoais, e no que o povo tem nos organismos legislativo e administrativos do Estado como uma única representação. Contudo, esta democracia pode reverter de diversas formas (orgânica e inorgânica, socializante ou liberalizante, etc.) e implementada depende de muitos fatores étnicos e culturais. Permita-nos somente duas observações que afeta ao terreno ético em que nos movemos:
3.1. Os crentes podem e devem acatar e obedecer, em tudo o que não seja contra a sua consciência de cristãos, às autoridades de qualquer sistema político.
3.2. Estão no direito e dever de promover pacificamente um estado de coisas em que melhor se salvaguardem a verdade, a justiça e a liberdade. Em princípio diríamos que o melhor sistema político é a democracia pura, mas não se esqueça de que a democracia, como a liberdade, tem que merecê-las. A capacidade de convivência livre e democrática está em proporção direta com a educação social e política, assim como com a maturidade cultural, psíquica e moral (honestidade cívica) dos cidadãos. A responsabilidade desta educação cívica e política para tal democracia não incumbe somente aos indivíduos, mas principalmente aos governos e aos órgãos de formação e informação. O que não forma, o que não informa as mentes dos cidadãos com respeito aos valores da verdade, bem, justiça, etc., é eticamente mal. Vale a pena advertir algo de suma importância para um crente: o cristão tem direito de manter e expressar as suas opiniões políticas, mas, nunca deve entrar no debate político como crente, e sim como cidadão; do contrário, introduzirá na fé (na igreja), que é o fator de unidade, um elemento de divisão. Isto afeta especialmente aos ministros do Senhor, ou lideres de movimentos religiosos.


Extraído de Francisco Lacueva, Ética Cristiana – Curso de Formación Teológica Evangélica (Barcelona, Editorial CLIE, 1993), pp. 212-214.

Traduzido em 15 de Março de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO.